Renata Souza: 'Medo faz parte da vida'

Deputada à frente da Comissão de Direitos Humanos da Alerj diz que vai se manter firme pela defesa da vida

Por WALESKA BORGES

Deputada Renata Souza

Nascida e criada no Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio, a deputada estadual Renata Souza (PSOL), de 36 anos, é a primeira mulher negra a presidir a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Formada em Jornalismo pela PUC-Rio e militante dos Direitos Humanos há 18 anos, foi chefe de gabinete da vereadora assassinada Marielle Franco (PSOL), além de ter atuado ao lado do então deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) por dez anos na Comissão de Direitos Humanos da Alerj. Nas últimas eleições, foi eleita deputada estadual pelo PSOL, com 63.937 votos, sendo a mais votada da esquerda na Casa. Para a Comissão de Direitos Humanos, foram empossados também os deputados Márcio Gualberto (PSL), Martha Rocha (PDT), Waldeck Carneiro (PT) e Carlos Minc (PSB), tendo como suplentes os deputados Enfermeira Rejane (PCdoB), Flávio Serafini (PSOL), Filippe Poubel (PSL), Mônica Francisco (PSOL) e Anderson Moraes (PSL).

Como será sua atuação à frente da Comissão de Direitos Humanos?

O trabalho que a gente pretende desenvolver na Comissão de Direitos Humanos é uma continuidade de algo que já se estabeleceu como parâmetro de atuação dentro do estado, que é realizar os atendimentos de pessoas que tiveram seus direitos violados. Um atendimento que leva em consideração não só a realidade dessa pessoa, e mais a demanda que ela nos traz. Por exemplo, a pessoa está precisando de um advogado, a gente encaminha para Defensoria Pública, ou a pessoa precisa de um atendimento psicológico, a gente encaminha para rede pública de saúde. Então a gente faz um trabalho dentro da Comissão de Direitos Humanos muito direcionado para atender as pessoas que demandam do próprio estado um atendimento.

Vai ser difícil atuar no estado com um governador que fala de rigor policial e defende condutas polêmicas como atirar "na cabecinha"?

A nossa atuação é de oposição a esse tipo de lógica na segurança pública, que é do enfrentamento, que não traz segurança para ninguém. Nem para o policial que está na ponta nem para as pessoas que estão na favela. Porque quando a gente fala desse tipo de operação, em que está livre o abate, você está colocando em risco aquelas pessoas que moraram na favela e periferia. Você já direcionou para onde vai ser esse tipo de política. Então hoje, na verdade, não existe um plano de segurança pública no Rio de Janeiro. A gente não vê o Witzel apresentar qualquer iniciativa que possa valorizar esse policial ou trazer um trabalho que reduza o número de homicídios no Rio de Janeiro. Ao contrário disso, o que ele faz é dar carta branca para esse policial, que está lá na ponta, possa matar o que eles consideram não só inimigo ou um suposto bandido que esteja com um suposto fuzil. Por que digo isso? Recentemente, no Rio de Janeiro, teve o assassinato de uma pessoa no Chapéu Mangueira que foi confundida com bandido. Ele estava com um guarda-chuva que foi confundido com fuzil. Ou seja, a gente tem essa polícia que precisa ser treinada, porque acaba vendo todo morador de favela como possível inimigo. Para gente é complicado num momento em que esse governador deu toda condição para que as pessoas possam cometer crimes na favela. É Isso que o governador fala para a tropa.

Apesar do Witzel dar carta branca, o policial também está morrendo...

A gente tem a polícia que mais mata e a polícia que mais morre. Isso é contradição em si, porque aquilo que o estado apresenta como solução, que é matar mais, na verdade, não protege esse policial. As pessoas precisam entender que o Witzel não tem uma política pública de segurança no Rio de Janeiro, que a aposta dele é no genocídio, e que isso está extremamente equivocado do ponto de vista de quem quer assegurar a segurança de todos. As pessoas precisam compreender que o Witzel está abrindo mão da vida dos policiais e da vida da população do Rio de Janeiro, em especial, da vida de quem mora nas favelas.

Você é mulher, negra, nascida e criada na Maré, acredita que sofrerá preconceito na Alerj?

Há toda uma lógica de subestimar o trabalho da mulher negra, que tem origem pobre, de favela. Sem dúvida, a gente já sofre com isso. Não só dentro da Alerj, como fora, como na própria sociedade, mas a gente já demonstrou a que veio. Vamos defender a dignidade humana, para evitar que a humanidade se desumanize.

O seu vice na Comissão de Direitos Humanos, Márcio Gualberto, é do PSL. Isso lhe trará algum problema?

Acho que não. Ainda que o PSL seja um quadro que tem dificuldade de entender qual a proposta real da defesa da vida, o Gualberto tem se demonstrado uma pessoa muito sensível aos debates, respeitoso. E isso, para a gente, é fundamental numa casa republicana. Por mais que haja divergências de ideia e concepção de mundo, a gente consiga ali encontrar um meio do caminho para fazermos um bom trabalho na Comissão de Direitos Humanos.

Qual será o foco da Comissão de Direitos Humanos?

O foco da Comissão de Direitos Humanos hoje, além de dar continuidade ao trabalho que ela vem realizando ao longo desses dez anos sob o comando do Marcelo Freixo [deputado federal] e também coordenado pela Marielle Franco [vereadora assassinada], é também trazer uma responsabilidade grande para a construção de políticas públicas que reduzam o número de homicídios e feminicídios no Rio de janeiro.

O assassinato da Marielle Franco completa um ano, dia 14 de março, ainda sem solução. Como você vê esse caso?

Eu vejo como algo muito preocupante e que nos causa muita indignação. Afinal de contas, a gente teve o assassinato de uma mulher negra, pobre, que ultrapassou todas as escalas de preconceito, de privações numa sociedade, e que chegou aonde muitas de nós não chegamos, e sequer somos reconhecidas, que é o parlamento, que historicamente foi negado para nós. Ou seja, a Marielle passou por todos esses elementos, por todas privações e no fim das contas ainda se tornou um alvo fácil. Isso para gente é muito difícil olhando para uma situação, hoje, de um estado que não nos dá resposta e de diversas cortinas de fumaça que se formam diante do caso. Hoje, a gente tem uma investigação sobre a investigação e isso é muito sério para a gente. Esperamos que esse caso se resolva, mas, cada dia que passa, diminui a nossa esperança e aumenta a nossa crença de que a política matou a Marielle.

Você tem medo de ser assassinada como a Marielle?

O medo faz parte da nossa vida. Eu morei minha vida toda na Maré, eu tive medo. Tive medo de sair de casa e levar uma bala perdida. Então, agora, é claro que o medo é outro, mas esse é um medo que impulsiona. É um medo diante de tanta barbárie que a gente vê, não podemos achar, que se esconder vai resolver a situação. Então a gente tem um trabalho muito concreto aqui, entendendo que a questão de segurança não vai ser relativizada por nós, mas também considerando quanto é fundamental a gente se manter firme na luta pela defesa da vida.

Os Direitos Humanos são para todos. Como as pessoas podem fazer as denúncias?

Temos uma sala na Alerj. Qualquer pessoa que tiver o seu direito violado, e nós sabemos que o Estado é o principal violador dos Direitos Humanos, pode se encontrar aqui com a gente. Independentemente de quem seja, ela pode contar com nossa ajuda, porque é para isso que estamos aqui. A gente não hierarquiza a dor, não defende que a vida de um é mais valiosa do que a de outro. O que a gente faz é acolher todos aqueles que chegam até nós. Fomos nós que fizemos um protocolo de atendimento a familiares de policiais vítimas da violência. Você não vê qualquer iniciativa, por exemplo, daqueles que acusam a gente de não defende-los. A gente está aqui para o acesso a direitos de todos sem distinção.