Pag. 11 - Diárias alegram peões que farão festa longe de Copa

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João Cláudio Souza Barcelos, o Geleia, 46 anos e há 20 montando e desmontando palcos de eventos esportivos e artísticos na orla de Copacabana, recebe diária de R$ 40, mas tem lucro de apenas R$ 25.

– Moro em Saracuruna, na Baixada Fluminense, e pego dois ônibus para chegar a Copacabana. Ao todo, são R$ 15 de passagem, R$ 7 de ida e R$ 7 da volta – contabiliza Geleéia, que sai de casa às 4h para estar às 8h na Avenida Atlântica e é pai de sete filhos.

O montador revela o segredo de sua força e robustez.

– É essa quentinha que a gente come no almoço. Adoro quando é galinha – diverte-se o morador de Saracuruna.

Geleia nunca assistiu à festa do Réveillon que há 20 anos ajuda a montar em Copacabana, mas não se sente f r u s t ra d o.

– Os gringos se divertem com meu suor, mas eles têm que gastar dinheiro e vir ao Rio para ver mulher bonita.

Já eu posso admirar nossas gatas sem gastar nada – brinca Geleia, de olho em duas louras que desfilavam pelo c a l ç a d ã o.

Ganhando apenas um pouco mais que Geleia – R$ 60 de diária – o montador Joelson Rodrigues, 31 anos, não lamentava o rendimento.

– É melhor pingar alguma coisa do que secar. Os R$ 60 já ajudam – consolava-se ele, que não troca o Réveillon em Magé, onde mora com a mulher e três filhos, pela festa em Copacabana. – É ruim viajar 50 quilôme tros e vir para cá com a família.

Lá tem uma turma boa e nos divertimos muito mais – garante Joelson.

Já o amigo William Sérgio, 26 anos, morador de Caxias, torcia para acabar logo esse monta-desmonta.

– Já estou há quase 20 dias direto nisso. Quando deito para dormir não aguento de tanta dor nas costas – queixou-se ele, descarregando ferragens de um caminhão na areia.

Ao mesmo tempo em que apertava mais um parafuso da estrutura metálica da passarela entre o Copacabana Palace e o palco principal da festa, Inácio Ferreira Nonato, 35 anos, exaltava o Réveillon na Penha.

– Ainda mais agora, que lá está tudo pacificado pela polícia e vamos ter queima de fogos. – argumenta. – Antes da virada, vou até à Igreja da Penha agradecer por a paz ter voltado ao bairro onde nasci.

Enquanto ajudava a pendurar num guindaste um canhão de luz que seria fixado numa das 40 torres da orla, Rinaldo Meirelles, morador do complexo do Alemão, fazia planos para a virada longe de Copacabana.

– Já combinei com a família e alguns vizinhos. Vamos fazer a festa da virada na minha laje.