Crítica teatro - Disney Killer, por Ana Lúcia Vieira de Andrade
Philip Ridley, dramaturgo que surgiu nos anos de 1990 na Inglaterra, cujo nome está relacionado ao movimento conhecido como IN YER FACE (“na sua cara”, grupo do qual Sarah Kane, Mark Ravenhill e Anthony Neilson são os expoentes mais conhecidos), que sacudiu a cena britânica do final do século XX, vem de uma carreira como artista plástico e performer, na qual desenvolveu o interesse por monólogos longos que apresentava em galerias de arte. Mais tarde, esses mesmos monólogos acabariam por dar início a uma bem-sucedida trajetória no teatro e no cinema. O primeiro de seus textos encenados, The Pitchfork Disney, atualmente em cartaz no Teatro Sérgio Porto, sob o título de The Disney Killer, com direção e tradução de Darson Ribeiro, subiu aos palcos de Londres em janeiro de 1991, ou seja, há mais de vinte anos, produzindo, na época, um choque devido ao retrato provocador e agressivo que pintava das relações humanas. Em determinado momento da peça, por exemplo, um dos personagens comia uma barata para provar o quanto certas pessoas se sentiam atraídas por imagens que instigavam nojo.
A trama, que faz uso do grotesco como categoria estética, gira em torno de dois irmãos, Presley e Haley, que não conseguem relacionar-se com o mundo exterior, preferindo esconder-se em uma casa devastada, onde vivem à base de chocolate e pílulas para dormir. Seus pais desapareceram há muitos anos, sem maiores explicações, e, após o abandono, que não sabemos se é real ou imaginário, ambos optaram por uma existência presa a memórias do passado, alimentada por fantasias de terror. Numa relação sadomasoquista, marcada pelo autoengano, Presley e Haley vivem num estado de anestesia emocional, onde todas as sensações são resultado do prazer provocado pelo consumo de chocolate ou do terror gerado pelas lembranças. São, assim, propositadamente, até esse momento, personagens pouco dramáticos, pois não possuem vontade ou objetivo e não estão construídos num presente. Com a chegada de Cosmo Disney, artista de cabaré que seduz por sua beleza, e, posteriormente, a de Pitchfork Disney, cria-se um embate que abalará o pequeno mundo dos irmãos e transformará Presley numa presa que precisará agir e lutar para se defender, readqurindo, assim, a humanidade perdida. Num estranho jogo verbal de sedução, onde temas como homossexualismo, pedofilia e sexo são tratados com absoluta crueza e profunda crueldade, Cosmo e Presley acabam por revelar personalidades opostas àquelas indicadas por suas aparências. O primeiro, bem-sucedido, capaz de fazer piadas e “bonito como um ator de hollywood”, mostra-se selvagem, despido de qualquer sentimento humano, enquanto que o segundo, apesar de sombrio e vestido com roupas velhas, de aspecto pobre e desleixado, é o único capaz de demonstrar alguma solidariedade e compaixão, pois deixa-se afetar pelo horror que viu e viveu. Cosmo, em sua violência, pisa sobre tudo para vencer e destruir. É aquele que produz terror.
Disney Killer, como teatro, representa a fisionomia de uma geração que vê no horror a imagem expressiva mais característica da experiência humana nas sociedades contemporâneas. Seu trabalho com o grotesco, guardadas as diferenças, faz lembrar, de certa maneira, o de alguns autores brasileiros, como o de Ísis Baião em Casa de Penhores, texto premiado na Grécia.
A montagem de Darson Ribeiro realiza um bom trabalho no que diz respeito à direção de atores. Todo o elenco expressa bastante bem a dor e a violência de seus personagens, com destaque para o próprio diretor, que vive Presley, e para Felipe Folgosi, intérprete de Cosmo. Samantha Dalsoglio, apesar de alcançar bons momentos em cena, tem poucas chances de expandir a sua Haley, papel cuja interferência na ação da peça torna-se reduzida. Alexandre Tigano dá uma postura um tanto caricatural a seu Pitchfork. A encenação também acerta ao destacar a atmosfera de perigo, o simbolismo religioso e o humor negro do texto; no entanto, às vezes, parece cair nas armadilhas que o próprio material literário coloca, como a longa introdução que mostra o relacionamento entre os gêmeos, um tanto desnecessária, ou a tendência a trabalhar com a distorção proposta pelo grotesco a partir de um certo apelo à caricatura. Percebemos, também, que a chegada de Cosmo parece instaurar um clima algo mais psicológico, o que não está de acordo com a opção estética principal do autor. A trilha sonora dá uma contribuição demasiado modesta ao todo. Figurinos e cenários, bem como a iluminação, são meramente adequados. Disney Killer, contudo, resulta, ainda que apresente algumas falhas, uma experiência teatral que se impõe por sua singularidade e, portanto, merece ser conferida.
Cotação: ** (Bom).
