Crítica - Meia-noite em Paris
Gil Pender é um bem-sucedido roteirista de Hollywood que sente saudades de um tempo e um estilo de vida que não experimentou. Aspirante a escritor de sucesso na juventude, deixou-se levar pela rotina de uma atividade bem paga, com a qual, décadas depois, não se sente mais confortável. Em Paris, onde acompanha os futuros sogros em uma viagem de negócios, Gil passa a viver fantasias com escritores e artistas que admirava, como Ernest Hemingway, Scott Fitzgerald e Gertrude Stein, Pablo Picasso, Salvador Dalí e Luís Buñuel.
O personagem, que troca noites ao lado da noiva para privar da companhia de seus ídolos de juventude, é o novo alter ego de Woody Allen, e está no centro da comédia romântica Meia-noite em Paris. O filme, que abriu o último Festival de Cannes, promete devolver o diretor americano à lista de finalistas do Oscar. O segredo da história está em seu clima surrealista, que lembra o choque entre realidade e a fantasia de A rosa púrpura do Cairo (1985), um dos clássicos da lavra do realizador. Com diálogos saborosos e as interpretações encantadoras, no limite da caricatura estudada, o filme é Allen em estado de graça.
Assim como Manhattan (1979) paga tributo à cidade onde nasceu e se criou, Meia-noite em Paris pode ser visto como uma grande homenagem do diretor à capital francesa, cantada em prosa e verso em filmes por artistas de várias gerações. Amparado por um elenco afiado, que inclui os americanos Owen Wilson, Rachel McAdams e a francesa Marion Cotillard, o filme marca a volta do diretor ao cenário de Todos dizem eu te amo, comédia de espírito musical rodada na capital francesa em 1996, e retoma sua carreira no exílio profissional, de filmes feitos longe de sua cidade-natal, período interrompido momentaneamente a partir de Tudo pode dar certo (2009). *** (Ótimo)
