As pesquisas de intenção de voto erraram?
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Pesquisas erram? Sim. Há diversos fatores que podem ser decisivos para o erro, como metodologias inadequadas, questionários mal elaborados, equipes mal preparadas, mal treinadas ou tendenciosas. Foi o que aconteceu neste primeiro turno para as eleições presidenciais? No caso de institutos como o Ipec – antigo Ibope – e Datafolha, por exemplo, a resposta é não.
Para esclarecer, voltemos a 2018. Em 6 de outubro daquele ano, portanto no sábado anterior ao dia de votação para o primeiro turno, a pesquisa do antigo Instituto Ibope apontava 41% dos votos válidos para o atual presidente e 25% para seu oponente, Fernando Haddad. No dia seguinte, 7 de outubro, a boca de urna do mesmo instituto revelou forte movimentação para o voto útil, com 45% da população tendo declarado escolher o candidato que viria a se eleger presidente, enquanto 28% revelaram voto no petista. Uma diferença de 4 pontos percentuais a mais para Bolsonaro e 3 a mais para Haddad. Números próximos do resultado oficial: 46% a 30%. Dentro, portanto, da margem de erro.
Este ano, por causa da votação em todo o território brasileiro seguir o horário de Brasília, não houve boca de urna. A justificativa é que os resultados seriam divulgados pelo TSE a partir das 17 horas, e não das 19, como em 2018. Aos conglomerados de mídia, não valeria a pena pagar por uma enquete se os dados oficiais viriam na sequência do fechamento das urnas.
Foi um erro. Pois, como se observou, houve um vácuo de informação, nas programações de TV e internet, que durou quase duas horas. Apenas por volta das 18:30, quando os votos passaram a ser computados mais rapidamente pelo TSE, que análises mais aprofundadas se tornaram possíveis. Pior: criou-se um descrédito da população quanto à assertividade das pesquisas. Mais: a equipe do atual governo, atrás nas enquetes, bate sem dó nos principais institutos, taxando-os de mal-intencionados. Houve até absurdas e nada democráticas tentativas de calar esses institutos.
Tudo isso teria sido evitado com a realização de uma pesquisa de boca de urna em 2 de outubro passado. Se bem conduzida, poderia captar as movimentações, comuns no dia da eleição. E é óbvio que Bolsonaro e sua equipe só têm a ganhar com o ataque aos institutos de pesquisa. Seu estafe certamente comparou os dados do primeiro e segundo turnos de 2018 e percebeu que a movimentação de votos é menor na etapa final. Vejamos a comparação de preferência entre o então capitão deputado e Fernando Haddad às vésperas do segundo turno de 2018, segundo o Ibope: 54% a 46% no sábado, 56% a 44% na boca de urna. A apuração do TSE deu a vitória para atual ocupante do Palácio do Planalto, 55% a 45% dos votos válidos. Números muito próximos.
E se Bolsonaro ganha com o tal ataque, perdem os institutos de pesquisa, bem como os conglomerados de mídia, para quem os gurus de pesquisas adquiriram um status tão valioso como os comentaristas de arbitragem nos jogos de futebol. E, principalmente, deixam de ganhar os candidatos líderes nas enquetes, para quem a dianteira exerce forte papel motivacional na busca por votos. De pessoas que apoiam Lula, ouço comentários reticentes quanto às pesquisas.
Faltam poucas semanas para o segundo turno. Ainda dá tempo de as empresas “pesquiseiras” recuperarem parte da credibilidade, mostrarem os dados comparativos de 2022 x 2018, justificarem seus métodos. Estranha-me o silêncio.
Se a motivação dessas empresas não for poder exercer seu ofício livremente e de forma democrática a partir de 2023, que seja, ao menos, para retomar a confiança junto ao mundo corporativo, recheado de clientes que compram pesquisas em períodos sem eleição.
Vale a pena o silêncio? Silêncio que, neste momento, é favorável ao candidato à reeleição?
Publicitário, escritor e vice-presidente da União Brasileira de Escritores. Autor do romance “Através”.
