Próxima estação: Nação Brasil
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O Parlamento europeu, órgão legislativo da União Européia, e o Congresso dos Estados Unidos da América iniciaram este mês uma política retificadora e menos predatória do que a dos anos 70 do século passado.
O Parlamento europeu declarou a Hungria, do autocrata Órban, um país não democrático e condenou sua política de manipulação de leis e regulamentos em direção a um totalitarismo inaceitável. A decisão abre as portas para um congelamento dos fundos europeus de assistência econômica, caso não haja restabelecimento da ordem democrática. Não há mais compatibilidade entre a União Européia e o arbítrio autoritário.
O Congresso americano - como já havia mencionado em artigo anterior - promove, com a lei modestamente chamada de “combate à inflação”, uma profunda reforma nos mecanismos de regulamentação financeira e de efetivo investimentos para a preservação do planeta.
Tanto a Europa quanto os Estados Unidos da América nos mandam um recado claro de que a defesa de políticas autoritárias e anti-democráticas não será tolerada e terá consequências econômicas adversas para os países que nelas persistam ou a elas pretendam aderir.
Seria errôneo imaginar que esses movimentos restauradores sejam de natureza cosmética. No caso do Brasil, apostar que nossas políticas de desmatamento e abuso climático poderão continuar indefinidamente seria grave erro histórico. Obviamente, o primeiro setor a sentir os efeitos de uma política restritiva será o agronegócio, hoje extremamente auto-confiante de que nossas exportações serão sempre bem-vindas e inatacáveis.
Os Estados Unidos da América se dão conta dos riscos trazidos por uma globalização que os atingiu de forma considerável, ao aumentar o desnível social entre os segmentos populacionais e ao estimular, com o advento de Trump, políticas de ódio racial a tornar possível, senão previsível, uma guerra civil em menos de uma década.
Nesse panorama, tanto Europa quanto Estados Unidos convergem na tentativa de configurar um novo sistema econômico internacional em que as regras advindas de Breton-Woods são as primeiras a necessitar de ampla e renovada estruturação em que as experiências vividas na globalização financeira e os perigos trazidos pela Pandemia do Covid serão atentamente observados pelo espelho retrovisor da história.
Certamente, mais dias menos dias, novas regras do comércio internacional e da proteção do planeta terão que ser negociadas e o papel da China e de países como Brasil e Índia terá relevância óbvia muito maior do que no imediato pós-guerra ou na década de 70 do século passado. O mundo vai mudar.
Preocupa a situação em que nos encontramos no Brasil, onde, às vésperas de uma eleição das mais importantes de nossa história, o relato político adquire contornos surrealistas.
Não será pertinente fazer aqui um recenseamento das raízes do impasse político em que nos encontramos, muito menos caberia apontar culpados. Impõe-se apenas uma reflexão que compartilho com você: é este o Brasil que queremos? Um Brasil dividido por antagonismos e criminosamente estimulado a fazer pela força das armas o que se deve conquistar pelo debate amplo e democrático de ideias? O Brasil vai mudar? Queremos realmente mudá-lo?
Pode o Brasil suportar que 33 milhões de seus cidadãos estejam de uma forma ou de outra à beira da miséria? Podem milhões de crianças entre recém-nascidos e dez anos de idade não serem alimentados, com sequelas posteriores irreversíveis? Pode-se aceitar que se eliminem das farmácias populares remédios de uso contínuo contra a hipertensão e o diabetes? E o ensino público abastardado em que sequer a merenda escolar é garantida? Isto é admissível? Cristão? Evangélico? Democrático? Uma fatalidade? Ou simplesmente as vísceras abertas de nossa indiferença?
Aqui ainda se defende o neoliberalismo que tanto os Estados Unidos quanto a Europa abandonam. O combate ao desnível social aqui se limita a medidas paliativas de natureza eleitoreira e com profundos impactos negativos para a economia dos próximos anos. As famílias se endividam. O funcionalismo público se deteriora. E em nome de Deus se crucifica o povo. Sem disfarces nem comedimento se considera tanto Orban quanto Trump líderes a serem imitados.
Estamos viajando num trem-fantasma ladeira abaixo. A cada curva, disparates e desmandos autoritários nos acovardam e nos humilham. A lei é rasgada e remendada como pinguim de geladeira. Até quando?
No dia 2 de outubro, por menos de 24 horas, seremos os maquinistas desta locomotiva suicida e temos de levá-la à “Estação Brasil-Nação”.
Nossa tarefa é simples, porém histórica: desengatar esta Maria-Fumaça de nossos vagões. Definitivamente.
Sem aceitar qualquer tentativa de dar mais uma voltinha com ela. Para quê?
Para quê?
*Embaixador aposentado
