O neoliberalismo desde a infância

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Por RICARDO A. FERNANDES

Pode começar cedo, numa brincadeira em casa, jogando bola na rua ou na quadra do colégio. Você aprende que ganhar é bom, sente a adrenalina da vitória esquentar as veias do corpo. Na dinâmica da disputa, percebe que subjugar o oponente lhe dá poder para futuros triunfos. Em caso de novo desafio, tão importante quanto ganhar é propagar o sucesso. Se perder, ensinam-lhe a ter fibra e recuperar o posto perdido na batalha contra o outro.

Anos depois, aprende que apenas os mais fortes sobrevivem. Entulham sua cabeça quase juvenil com exemplos da natureza: a internet está repleta de vídeos com brigas fatais entre animais. O medo da derrota passa no mesmo instante em que você se identifica com o feroz agressor. “Sem perdão, irmão”. Falam de dominância, liderança, usam o exemplo dos lobos ferozes que precisam ser controlados pelo mais forte, o “alfa”. Não sabem que, numa alcateia, a biologia mostra a importância da colaboração entre os indivíduos para a sobrevivência do grupo.

A “seleção natural” justifica o combate que você está prestes a enfrentar na selva de pedra. Nos momentos difíceis, resgata ensinamentos de pais, avós, tios, professores. Se não lhe servem, recorre aos antepassados, sobre quem ouviu histórias de superação. Os genes desses antepassados determinam sua condição de ser humano superior e lhe dão ânimo extra. Agora, é seu dever perpetuar a linhagem familiar.

Em dado momento, você, pessoa adulta, até sente pena de um ou outro em situação precária. Mas não gasta tempo com pensamentos frágeis. Se possível, emprega alguns desafortunados e isso lhe entope de orgulho, pois acredita dar a esses poucos a oportunidade de libertarem-se da existência vulnerável. Pronto. Você, agora, é um liberal. Se antes usou força e capacidade para obter independência, agora estende a redenção a um bocado de súditos, nem sempre ungidos com sua bondade e condição genética superior.

A defesa desta sua liberdade se intensifica. Agarrado à ciência darwiniana que lhe serve tão bem, mesmo sem nunca ter lido “A Origem das Espécies”, você acredita que a “seleção natural” deve eliminar os mais fracos. Selecionável, veste e se apropria da camisa da pentacampeã Seleção Canarinho. E joga para defender seus pares, os acionistas da Petrobrás, por exemplo, que entopem os bolsos de dinheiro com a paridade preço do combustível ao dólar enquanto o litro da gasolina sobe a patamares estratosféricos e impede a maioria dos seus conterrâneos de, ao menos, dirigir um Uber.

Na carreira, a proximidade com os pares é desejável. Gente que pensa como você, partilha seu gosto por vinhos exclusivos, viagens caras, alguns esportes radicais – na maioria impraticáveis – e outros mimos restritos a quem está no topo da pirâmide social. A pirâmide se afunila quando seus colegas se concentram em disputas por poder político. Com sorte e estômago, você conseguirá uma concessão estatal. Agora, se eventualmente a fortuna lhe faltar, alguns privilégios anteriormente conquistados podem escorrer da sua conta bancária.

Simultaneamente, você e boa parcela da gente que ambiciona seu modo de vida elege, de forma democrática, alguém cujo pragmatismo eleitoral seja motivado por intenções pouco claras. Seu ânimo volta, mas a sorte logo se distancia quando o eleito infla o peito de ares populistas e tenta criar condições para se manter no poder. O mandatário escolhido restringe os libertários ideais econômicos a um grupo do qual você não faz parte.

Você, um neoliberal neoexcluído, sempre disposto ao ataque, passa a se defender da voracidade dos pares que aguardam um deslize para abocanhar seu patrimônio. Neste momento, a casa de muros altos é o refúgio da liberdade que tanto defendeu. Torce, então, para que o eleito saia. Que venha outro, melhor. Ou menos ruim, você desiludido. Talvez esta seja a hora de repensar o seu liberalismo.

Publicitário, escritor e vice-presidente da União Brasileira de Escritores (UBE-SP). Autor do romance “Através”.