Filho de João Goulart relembra o comício que levou ao golpe de 1964
Há 54 anos, o então presidente João Goulart discursava para cerca de 200 mil pessoas na Avenida Presidente Vargas, no histórico Comício da Central do Brasil, em 13 de março de 1964. As mensagens incendiárias eram transmitidas ao lado de Maria Teresa, a bela primeira-dama, com seu coque americanizado. Goulart, também conhecido como Jango, propunha a reforma agrária em propriedades próximas aos grandes centros. Durante sua fala, anunciou à plateia que acabava de assinar o documento encampando as refinarias de petróleo. Este teria sido o estopim que desencadeou o golpe ocorrido poucos dias depois, naquele mesmo ano, e que deixou o país 21 anos sob as trevas da ditadura militar.
Nessa terça-feira 13, na mesma data em que o comício foi realizado, o filho do ex-presidente, o filósofo João Vicente Goulart, releu o discurso do pai para grupos de pessoas ao lado do busto do pai, instalado na frente da estação ferroviária. “Foi emocionante, muita gente chorando. Tinha até um gari que assistiu ao discurso ainda bem jovem”, relatou o candidato à presidência pelo Pátria Livre, partido criado pelo ex-deputado federal brizolista, Vivaldo Barbosa.
O comício de 1964, segundo João Vicente, foi o primeiro idealizado por João Goulart. Seu objetivo era conquistar o apoio popular, já que o Congresso não apoiava as reformas que desejava implantar no país. Os deputados eram financiados pelo Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), fundado em 1961 pelos empresários Augusto Trajano de Azevedo Antunes e Antonio Galotti, ligado à Light, e um dos principais conspiradores contra o ex-presidente. “O segundo comício seria no dia 21 de abril, mas aí o golpe já havia sido instaurado. Havia, inclusive, um plano para assassinar meu pai naquela data”, lembrou. “Até hoje o país não realizou as reformas estruturais necessárias ao desenvolvimento social da nação”, lamenta o filósofo dublê de político.
O Comício da Central, também chamado de Comício das Reformas, começou a ser anunciado pelo governo desde janeiro de 1964. A transmissão ao vivo por rádio e TV para todo o país espalhou um rastilho de pólvora, ao mesmo tempo, entre a população brasileira e sobretudo os militares. Por volta das 14h daquele 13 de março, cerca de 5 mil pessoas já se aglomeravam para ouvir o discurso do ex-presidente na Praça Cristiano Ottoni, endereço estratégico localizado nas imediações da Central do Brasil e do Ministério da Guerra. O que mais teria incomodado as Forças Armadas seria a ênfase de João Goulart em promover a reforma agrária.
Naquela época o Brasil era um país bem diferente. Se o campo concentrava a metade da população do país, hoje ela não passa de 8% dos brasileiros.
Antes de seguir para o palanque, João Goulart assinou, no Palácio Laranjeiras, o decreto da Supra (Superintendência Regional de Política Agrária). Era então oficializada a desapropriação de áreas ao longo das ferrovias, das rodovias, das zonas de irrigação e dos açudes. O ex-presidente autorizou ainda o decreto que encampava as refinarias particulares de petróleo.
O comício começou às 18h, sob a proteção das tropas do 1 Exército, da Marinha e da Polícia. Jango, porém, só subiu ao palanque às 19h45 e começou seu discurso exatamente às 20h46, após a fala do então presidente da UNE, José Serra, dos governadores de Pernambuco na época, Miguel Arraes, e do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, casado com Dona Neusa, irmã do presidente. Jango falou de improviso durante pouco mais de uma hora. O presidente fazia pausas no discurso, enquanto secava o suor passando um lenço no rosto. Nesses momentos, o ministro da Casa Civil, Darcy Ribeiro, aproveitava para sussurrar ao ouvido do presidente observações como, “fale mais devagar, presidente”. O ímpeto de Jango, porém, parecia acelerar o ritmo de quem já estava cansado de se submeter à pressão do Congresso Nacional.
Bandeiras vermelhas pediam a legalização do Partido Comunista, ao lado de cartazes como “Abaixo os latifúndios e os trustes” ou da reprodução da imagem de Fidel Castro com o dizer: “Ele é o nosso líder”. A manifestação, por sinal, foi organizada por sindicatos comunistas e trabalhistas, entre eles o deputado Hércules Corrêa, fundador e dirigente do Comando Geral dos Trabalhadores e Paulo Mello Bastos, diretor da Confederação dos Trabalhadores Marítimos, Fluviais e Aéreos.
Dezenove dias depois, o general Olímpio Mourão Filho ordenava suas tropas a deixarem Juiz de Fora para ocupar o Rio de Janeiro. Era o início do golpe militar de 1 de abril.
