'El País': "Brasil, uma novela ruim", define Padura sobre cenário político
Artigo de Leonardo Padura compara saída de Dilma a uma novela sem final feliz
Artigo publicado pelo jornal espanhol El País neste domingo (11) traz um texto de Leonardo Padura, escritor e jornalista cubano, considerado um dos melhores de seu país. Ele compara o cenário atual da política brasileira às novelas produzidas no país. "No final, além do dolorido sentimento de frustração, muitos de nós comprovaremos mais uma vez que é mais fácil escrever um final feliz para uma telenovela do que para a realidade de um mundo em que se condena Dilma Rousseff e o seu projeto enquanto Donald Trump e o seu anti-projeto nos espreitam", diz o escritor.
Paduro lembra que as novelas brasileiras sempre têm um tom dramático e ético, e que embora os heróis passem por terríveis dificuldades e recebam os mais duros golpes, ao final a justiça e a verdade sempre saem vitoriosas. Exatamente por isso que elas são novelas, e fazem sucesso nas mais diferentes culturas, embora a realidade, como sabemos, costuma ser bem diferente, mesmo quando se trata da realidade brasileira.
O escritor cubano diz que quando quase todo mundo, ao analisar racionalmente o desenvolvimento do processo de destituição da presidenta do Brasil, Dilma Rousseff já antevia o seu resultado, ele próprio romanticamente, mantinha alguma esperança em uma mudança da sentença anunciada. Leonardo argumenta que talvez por uma deformação profissional, ele confundisse a realidade com a linguagem das telenovelas.
Padura diz que não é segredo para ninguém que a corrupção é um mal quase endêmico nas sociedades latino-americanas (embora não apenas nelas). E o fato de se julgar um presidente por ter participado de atos desse tipo lhe parece uma decisão exemplar. No caso específico de Dilma, o seu pecado não se encaixa nessa categoria, e sim naquilo que poderia ser classificado como um mau uso dos fundos públicos, não com objetivos de ganho pessoal, como é hábito, mas para manter em funcionamento algumas políticas adotadas pelo seu Governo e que ela considerou prioritárias, opina o escritor cubano.
> > El País: Brasil, una mala telenovela
Para Leonardo a primeira coisa que parece curiosa nessa lógica, é que uma quantidade significativa dos juízes que decidiram o destino da ex-presidente enfrenta processos por corrupção pura e simples; são alvo de investigações em curso que, se levadas a cabo e julgadas com a mesma contundência com que se apreciou a administração de Dilma— e é assim que deveria ser, em se tratando de justiça —, poderiam leva-los até mesmo à prisão. Se não todos, pelo menos alguns deles. Nem que fosse para se continuar a dar o bom exemplo.
O escritor cubano acrescenta que também não é segredo, que ao longo de todos esses meses em que tanto se falou da crise política brasileira, o fato de terem ocorrido erros políticos e estratégicos por parte da ex-mandatária, os quais estiveram por trás das fricções e rupturas que atingiram a coalizão interpartidária que a sustentava. Mas equívocos desse gênero acontecem todos os dias nos gabinetes governamentais do mundo inteiro, e as crises conseguem ser solucionadas com o debate político, e não com o julgamento e a condenação aplicados no caso de Dilma, reafirma Leonardo.
O artigo aponta que tamanho empenho para tirar do poder a ex-presidente e, com ela, o Partido dos Trabalhadores, ao qual Dilma pertence, deve esconder, portanto, outras razões menos claras e visíveis. Pois as toneladas de mesquinharias e de ódio acumulados nas altas esferas da política brasileira têm motivações mais obscuras: a vingança e o empenho para frustrar um projeto político, ou, como ouvi dizerem, “um projeto de país”.
Padura comenta que a radicalização dos partidos e dos senadores contra Dilma trouxe consigo o mau cheiro de uma revanche, destinada a desmontar uma política social que, nos anos de governo do PT, definiu para si um objetivo fundamental: melhorar a vida dos brasileiros em geral e dos mais pobres e marginalizados em particular. Sem dúvida, Lula e Dilma cometeram erros em suas gestões, e sob seus mandatos houve casos de corrupção, nos quais, ao menos até o momento, não se provou a sua participação.
O jornalista conclui que os dois presidentes, sem a menor dúvida trabalharam em favor daquele grande objetivo econômico e social. No mínimo o estimularam muito mais do que quase todos — ou do que todos — os presidentes anteriores desse país. E os dados mostram isso. Como é possível, então, que tantos brasileiros, muitos mais do que aquilo que se poderia chamar de oligarquia ou dos inimigos reunidos nos partidos contrários a essa política, tenham participado do solapamento do prestígio de Dilma e viabilizado a sua condenação?
Leonardo Padura, escrior e jornalista cubano finaliza seu artigo com a percepção de que a crise pode ter viabilizado a saída da presidente, mas não compreende a facilidade com que os meios de comunicação e a propaganda conseguem manipular o pensamento das massas e condena a sempre presente ingratidão humana, impulsionada, neste caso, pelas ambições pessoais nem sempre realizadas.
