Estudo de ligações de Mizael gera bate-boca entre acusação e defesa

Promotor  chamou o advogado Ivon Ribeiro de "ignorante" durante apresentação técnica

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O depoimento do engenheiro de telecomunicações Eduardo Amato Tolezani durante o julgamento de Mizael Bispo dos Santos - acusado pela morte da ex-namorada Mércia Nakashima, em 2010 -, gerou discussões acaloradas entre a promotoria e a defesa do réu, no plenário do Fórum de Guarulhos (SP).

Durante as questões apresentadas pela defesa de Mizael ao engenheiro, o juiz Leandro Jorge Bittencourt Cano chegou a cassar a palavra do promotor Rodrigo Merli Antunes, que chamou o defensor Ivon Ribeiro de "ignorante".

A discussão se deu por questões técnicas. Em juízo, o réu afirmou que a partir das 18h45 do dia 23 de maio - data da morte de Mércia - seu carro ficou estacionado próximo ao Hospital Geral de Guarulhos, o que pode ser comprovado pelo sinal do GPS do veículo. A acusação afirma que o carro ficou ali porque Mizael marcou um encontro com Mércia e, juntos, os dois seguiram no carro da vítima. Após esse horário, várias ligações do telefone de Mizael foram registradas em pontos diferentes da cidade.

A promotoria defende que Mizael teria matado Mércia durante o trajeto e, depois disso, jogado o carro dela dentro de uma represa do município de Nazaré Paulista, que fica a cerca de 100 quilômetros da capital paulista. A defesa diz que, no momento do crime, Mizael estaria justamente nas imediações do Hospital Geral de Guarulhos, o que impossibilitaria ele de estar no local do crime.

Julgamento é suspenso

Tolezani foi a terceira e última testemunha de acusação a ser ouvida nesta segunda-feira - após o seu depoimento, o juiz suspendeu o julgamento por volta das 20h30. A sessão deve ser retomada às 9h de terça-feira.

O primeiro a falar hoje foi Márcio Nakashima, irmão da advogada assassinada. Durante seu depoimento, Nakashima discutiu com o advogado Ivon Ribeiro, um dos três defensores de Mizael. O irmão de Mércia e Ribeiro trocaram várias acusações durante o depoimento da testemunha, que acusou o defensor de ameaçá-lo e de manchar a "honra" de sua irmã, o que fez com que o juiz Leandro Bittencourt Cano interrompesse temporariamente a transmissão do júri.

Márcio iniciou seu depoimento às 10h50 e, em diversos momentos, chorou em plenário, mas ficou especialmente exaltado quando o advogado Ivon Ribeiro o advertiu de que ele estaria fazendo juízo de valor em sua fala. O irmão de Mércia, então, não escondeu a indignação e chegou a ameaçar deixar o Fórum de Guarulhos.

"Esse cidadão aí, ele mesmo, fala que a Mércia era garota de programa. (...) O doutor Ivon fala aos quatro cantos (sobre a irmã dele)", disse Márcio, apontando para o defensor. "Eu prefiro ir embora", continuou. "Ele (o advogado) já me ameaçou na represa (de Nazaré Paulista, onde o corpo de Mércia foi encontrado). Falou que ia me colocar na cadeia. Isso que o senhor está querendo me falar agora, quer passar pro jurado, fica com esse joguinho. (...) Todo mundo viu a provocação quando eu cheguei lá (sem especificar a que local se referia)", disse. Ribeiro, então, reagiu à declaração e falou, exaltado, para que ele provasse as acusações. "Traga provas", rebateu o advogado.

O bate-boca não parou por aí e Márcio continuou com as acusações ao advogado. "O senhor chegou a dizer que eu e minha irmã Cláudia temos uma ficha criminal", disse Márcio, ao que o Ribeiro respondeu: "Me processa!", afirmou o advogado. "Então vou fazer isso, então pode ter certeza. Não fiz isso ainda por orientação do meu advogado", rebateu o irmão de Mércia. Neste momento, o juiz interrompeu a transmissão do júri e alertou Márcio para que ele tentasse se acalmar, lembrando que ele depunha como testemunha de acusação, não como familiar da vítima.

Depois de Márcio, foi a vez do biólogo Carlos Eduardo de Mattos Bicudo ser ouvido. Em depoimento, a testemunha afirmou que as algas encontradas no calçado do réu Mizael Bispo de Souza são compatíveis com as existentes na represa de Nazaré Paulista, local onde Mércia Nakashima foi encontrada morta em junho de 2010.

Ao responder uma pergunta da defesa de Mizael, o biólogo disse que é grande a possibilidade de Mizael ter adentrado à represa. Segundo ele, o réu teria pisado a uma profundidade entre 20 e 50 centímetros, já que as algas vivem dentro da água.

Samir Haddad Junior, assistente de defesa, perguntou ao biólogo se ele poderia afirmar que ao empurrar o carro da vítima Mizael atolou o pé na margem da represa. A resposta foi: "é a grande possibilidade".

O caso

A advogada Mércia Nakashima, 28 anos, desapareceu no dia 23 de maio de 2010, após deixar a casa dos avós em Guarulhos (Grande São Paulo), e foi encontrada morta no dia 11 de junho, em uma represa em Nazaré Paulista, no interior de São Paulo. A perícia apontou que ela levou um tiro no rosto, um tiro no braço esquerdo e outro na mão direita,  mas morreu por afogamento quando seu carro foi empurrado para a água.

O ex-namorado de Mércia, o policial militar reformado e advogado Mizael Bispo de Souza, 43 anos, foi apontado como principal suspeito pelo crime e denunciado por homicídio triplamente qualificado (motivo torpe, emprego de meio cruel e mediante recurso que dificultou a defesa da vítima. De acordo com a investigação, Mércia namorou durante cerca de quatro anos com Mizael, que não se conformava com o fim do relacionamento amoroso. A Promotoria também denunciou o vigia Evandro Bezerra Silva, que teria o ajudado a fugir do local, mas seu julgamento ocorrerá separadamente, em julho deste ano.

Preso em Sergipe dias depois da morte de Mércia, Evandro afirmou ter ajudado Mizael a fugir, mas alegou posteriormente que foi obrigado a confessar a participação no crime, sob tortura. Entretanto, rastreamento de chamadas telefônicas feito pela polícia com autorização da Justiça colocaram os dois na cena do crime, de acordo com as investigações. Outra prova que será usada pela promotoria é um laudo pericial de um sapato de Mizael, no qual foram encontrados vestígio de sangue, partículas ósseas, vestígios do projétil da arma de fogo e uma alga típica de áreas de represa.

Mizael teve sua prisão decretada pela Justiça em dezembro de 2010, mas se escondeu após considerar a prisão "arbitrária e injusta", ficando foragido por mais de um ano. Em fevereiro de 2012, porém, ele se entregou à Justiça de Guarulhos e, desde então, aguardava ao julgamento no Presídio Militar de Romão Gomes - enquanto o vigia permanece preso na Penitenciária de Tremembé. Mizael nega ter assassinado Mércia e disse, na ocasião, que a tratava como "uma rainha". Já o vigia afirmou, em depoimento, que não sabia das intenções do advogado e que apenas lhe deu uma carona. Se condenados, eles podem ficar presos por até 30 anos.