Omissão, inoperância e o perigo das tragédias anunciadas
Manifesto na internet compara o caso da boate Kiss com o perigo iminente no elevado do Joá
A inoperância do poder público para assegurar a segurança da população encontra exemplos em todos os cantos do país. Frequentemente a insatisfação por conta desta omissão ganha visibilidade na internet. Nos últimos dias, vem circulando pela web um texto - sem assinatura - que lança mais um manifesto contra a falta de ação do poder público, desta vez comparando o caso da boate Kiss - no qual morreram 240 pessoas - com o perigo iminente do Elevado do Joá, que liga os bairros de São Conrado e Barra da Tijuca, no Rio.
Recentes estudos mostraram o avançado estado de degradação da via, mas, apesar do alerta de especialistas, a prefeitura descarta a possibilidade de interditar e até reconstruir o elevado, optando por mais uma obra de conservação. No manifesto "Boate Kiss X Elevado do Joá", os internautas alertam: "esta nota não pretende criticar. Somente construir. Ela está originada na raiva e dor de ver o que acontece (Santa Maria) no Brasil quando a corrupção, a estupidez e a falta de planejamento e cuidado tomam conta da sociedade."
“Nós fomos empurrados para o canto do ringue”, diz presidente do CREA-RJ
Agostinho Guerreiro, presidente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio de Janeiro, destaca que muitas vezes o poder público está mais preocupado em fazer inaugurações do que em manutenções. “O poder de todo o país, e não só no Rio de Janeiro, tem uma cultura totalmente atrasada e sem sincronismo com a real necessidade do Brasil. O importante é fazer inaugurações. Então o trabalho de manutenção diária aparece muito pouco, porque não dá mídia para eles. O que estamos fazendo é pagando um preço muito caro para recuperar viadutos, túneis que nunca receberam a atenção adequada”, prosseguiu o engenheiro.
Agostinho avalia que a única razão que poderia levar a prefeitura a não realizar a reforma estrutural seria o alto custo do serviço de R$ 70 milhões. No entanto, para ele, não há alternativas. “Um trabalho de manutenção que não é feito há mais de três décadas não chega a outro resultado senão esse. É uma obra de custo elevado, mas nós fomos empurrados para o canto do ringue”.
“Não tem solução porque não tem alternativa, já que o transporte ainda é concentrado sobre rodas e este é um corredor imprescindível que liga a cidade à Zona Oeste. Poderíamos pensar em várias outras ideias se houvesse manutenção corretiva e permanente, mas como não, falar em derrubar o elevado é uma irresponsabilidade do ponto de vista do agravamento do caos na parte de transportes urbanos coletivos e individuais. Se uma chuva como a de terça-feira já provoca o tamanho do caos que provocou, imagine ficarmos sem o elevado?”, questiona Guerreiro.
Elevado do Joá
Depois de várias divergências, no início de fevereiro a prefeitura do Rio e a Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que fez um estudo recomendando a reconstrução total do elevado, chegaram a um acordo quanto ao destino do Elevado do Joá, que passa agora por uma reforma estrutural. Porém, moradores da Barra da Tijuca, Zona Oeste, ainda se preocupam com o “volume” e a “qualidade” da manutenção que é feita na estrutura do local.
A relações públicas Fernanda Bolotnicki, que faz parte das comissões de transporte e de segurança do condomínio Novo Leblon, na Barra, que abriga cerca de sete mil moradores, lembra que na época em que o elevado foi construído o fluxo de carros era bem menor do que o atual. “Agora vemos que a prefeitura está investindo na recuperação do elevado, mas não sei se as obras que estão sendo feitas são suficientes”, disse ela.
Reforma estrutural
De acordo com a prefeitura, as obras, que vão custar R$ 70 milhões, e que já estavam em curso, foram intensificadas em fevereiro, para dar continuidade ao processo de instalação de 128 vigas metálicas em cada nível (tabuleiro) do elevado. O trabalho começou pela parte inferior (sentido Barra - São Conrado) e a ideia é fazer os dentes de Gerber - estruturas que o relatório da Coppe apontou como comprometidas - perderem a sua função estrutural, já que o peso do elevado deve ser todo transferido para as novas estruturas.
Duplicação de pistas
O presidente da Câmara Comunitária da Barra da Tijuca, Delair Dumbrosck, acredita que daqui a no máximo dez anos haja a necessidade de duplicar as pistas do elevado do Joá. “Por mais que haja metrô, já é preciso fazer a construção de um novo elevado paralelo a ele. Tanto na entrada da Barra quanto na saída em São Conrado. Assim, haveria um novo elevado naquele trecho, fazendo um desvio do trânsito para entrar na parte nova. Isso permitira uma reforma geral no elevado do Joá, porque sem trânsito poderia haver a intervenção. E depois era só furar dois túneis para poder complementar a obra. Isso solucionava a questão”, sugeriu.
“Daqui a dez anos ninguém mais vai suportar o trânsito na área, que cresce assustadoramente na Barra, Jacarepaguá e adjacências. Nem o elevado, nem a Niemeyer, outro trecho que também precisa de atenção, vão suportar a quantidade crescente de veículos que passam por ali”, prevê Delair.
Milhões em demolição da perimetral e reestruturação do elevado
Em 10 de dezembro de 2012, o deputado estadual Luiz Paulo (PSDB) fez críticas à decisão de Eduardo Paes, a quem chamou de “príncipe-regente” , de demolir o elevado da Perimetral, que é sustentado por aço corten - um tipo de aço difícil de corroer -, e manter o do Joá, com sinais visíveis de corrosão e que teve sua demolição sugerida por especialistas do Programa de Engenharia Civil da Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia (Coppe/UFRJ).
Ele estaria optando por deixar intacto um viaduto com os ferros corroídos pela maresia e que faz a importante ligação da Zona Sul com Barra da Tijuca, e começando a demolir o viaduto da Perimetral, em bom estado e que tem fundamental importância no acesso à Ponte Rio-Niterói, à Avenida Brasil e à Linha Vermelha.
“Agora vai ser necessário recuperar todos os apoios e gastar mais milhões, porque, se houver problema em um, cai o elevado inteiro”, reforçou o deputado nesta quarta-feira (6).
