Turno integral afasta estudantes das ruas em Londrina

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Ter aula em período integral não é novidade em Londrina, no Paraná. Na cidade, a prefeitura inaugurou o sistema de aulas extracurriculares no turno inverso em 21 escolas municipais, numa tentativa de manter as crianças longe das ruas. A iniciativa começou a ser desenvolvida em 2009 e a meta é ampliar o programa para as 90 escolas da rede pública do município nos próximos anos.

As atividades não são obrigatórias, mas despertam a atenção dos alunos por tratarem de forma lúdica o conteúdo das aulas. Ministrada pela professora Zenaide Rocha, a oficina de ciências impressiona pela alta frequência dos matriculados, que deixam as brincadeiras de rua para aprender um pouco mais sobre o meio ambiente.

As saídas a campo para lições sobre a natureza diferenciam-na das aulas tradicionais. Mas, segundo a pedagoga, não são só esses os motivos que explicam o sucesso da iniciativa. A chave está no fato de aproximar o conteúdo da realidade das crianças e transformá-las em "professores" em casa.

Voltadas a estudantes das séries iniciais até quarta série do ensino fundamental, as atividades têm vagas limitadas, e o critério de seleção baseia-se no risco da criança permanecer nas ruas. Há 15 anos atuando com aulas de ciências, a pedagoga transformou o tema em tese de doutorado, na Faculdade de Educação (FE) na Unicamp, com a qual conseguiu detectar os motivos que fazem com que suas aulas passem um semestre inteiro sem nenhuma ausência.

A pesquisadora percebeu que a maioria das crianças frequenta as oficinas para brincar, sem o compromisso de aprender. Da mesma forma, muitas aulas são voltadas somente para o lazer. "Eu quis que nas minhas oficinas eles se divertissem, mas acima de tudo se sentissem aprendendo algo para a vida deles", conta. Por isso, Zenaide trabalha primeiramente com a alfabetização científica, ou seja, ensinando termos técnicos e conteúdos básicos, como funcionamento do solo e plantio. Depois vem a prática no campo. "Isso faz com que a criança seja exposta a coisas novas. Eles se sentem empolgados e querem voltar por curiosidade".

Um dos diferenciais da aula é o fato da professora detectar problemas da comunidade onde vivem os alunos e buscar soluções em sala. Os temas passam por poluição do ar, da água e do solo. "Eu ensino sobre a contaminação, a preservação, os cuidados". Com isso, os estudantes sentem que têm algo para ensinar em casa. "A maioria deles leva o que aprendeu para os pais, para os avós. E depois vem me contar o que mudou nas suas casas".

Na hora de estudar o solo, Zenaide estimula as crianças a avaliarem seus próprios quintais. "Eles observam a infiltração da água no solo, se há contaminadores e se conseguem fazer algum tipo de plantação. Depois disso, ensinam para os responsáveis e fazem mudanças na vida das suas famílias", diz. Ela lembra de um aluno que descobriu, com ajuda dos colegas, que a laje que existia no pátio da sua residência impedia a filtração da água e que por isso seu avô não conseguia plantar nada. "Ele e o avô retiraram a área de pisos e começaram a cultivar hortaliças", conta a professora.

Outro estudante percebeu que as plantações da família estavam infestadas de insetos. Depois de aprender em sala de aula sobre a importância de capinar, o aluno levou a informação para casa. "Inicialmente, os pais não o deixavam realizar o procedimento por falta de conhecimento. Achavam que ele ia estragar", conta a educadora. Na medida em que o estudante ganhou mais confiança e argumentos científicos, conseguiu convencer um tio, que passou a capinar com ele todos os dias.

Na sua pesquisa, a pedagoga avaliou que o seu trabalho é o equilíbrio entre dois tipos de ensino. O primeiro é quando o professor torna-se um robô, e as aulas são ministradas somente por ele, que utiliza termos técnicos e não permite a criação do estudante. "Nesse caso, as crianças sentem que estão aprendendo algo que nunca irão usar em suas vidas", explica. O segundo tipo é o que a professora chama de "ativismo exacerbado", quando a vontade de acolher é tanta que o educador deixa a criança fazer o que bem entende, solta para brincar. "Além de a criança não aprender nada, ela ainda sente que aquele momento é inútil, pois brincar é algo que ela pode fazer na rua".

O sucesso, portanto, está no fato de Zenaide ensinar um conteúdo científico e depois aproximá-lo da realidade de cada um. "A criança se sente útil e quer passar seu conhecimento para os outros. É impressionante essa vontade que eles têm de se sentirem professores também", conta. Além de passarem suas tardes aprendendo, e não ociosos pelas ruas, a oficina de ciências também faz com que as crianças melhorem a qualidade de vida das suas famílias.

Turno integral

Além das atividades de ciências, as crianças das 21 escolas que contam com o programa participam de oficinas de atletismo, xadrez, informática, artesanato, nutrição, jogos pedagógicos, literatura infantil e música. Elas ficam nove horas por dia na escola, onde recebem almoço, janta e lanches.