Dilma cita legado de Lula e rejeita miséria como "fatalismo"

Por Laryssa Borges e Claudia Andrade

Brasília - Acompanhada de 29 ministros e 16 governadores, a presidente Dilma Rousseff defendeu nesta quinta-feira o combate à pobreza extrema como uma das prioridades de seu governo e, ao lançar em Brasília o programa Brasil Sem Miséria, que pretende tirar da pobreza mais de 16 milhões de pessoas, enfatizou que não é uma "causa perdida" a luta para acabar com a faixa de brasileiros cuja família vive com menos de R$ 70 per capita mensais. Ela rejeitou ainda a tese da miséria como "fatalismo".

"Não aceito (classificar a miséria como) fatalismo. Não é realismo, é cinismo. Estou certa que devemos e podemos fazer uma sociedade sem miséria, e nenhum de nós pode fugir dessa luta. Farei a minha parte e darei o melhor de mim. Os desafios não me imobilizam, não me tornam refém. Ao contrário: sempre foram eles que me fizeram avançar na vida. Nenhum de nós pode se dar ao luxo do medo e da timidez. Cada um de nós somos reféns de nossos sonhos e de nosso compromisso com o Brasil", afirmou ela a uma plateia de cerca de 900 pessoas no Palácio do Planalto.

"O plano (de combate à miséria) tem o efeito de gritar, de afirmar para todos nós que a miséria ainda existe no Brasil. O grande mérito desse plano é trazer para a pauta o compromisso de lutar a cada dia para que o Brasil não tenha mais miséria. Dela não podemos nos esquecer um só minuto enquanto governarmos. Devemos fazer todo e qualquer esforço para superá-la e para dizer que a luta contra a miséria é, antes de tudo, um dever do Estado, mas também uma tarefa de todos os brasileiros", disse.

Ao lado do ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, alvejado por denúncias de um suposto crescimento irregular de seu patrimônio, Dilma destacou que "a crise mais desafiadora" do governo é combater a pobreza extrema. "Se somos capazes de dar atenção aos problemas e crises que se instalam pela vida, não podemos nos esquecer da crise mais desafiadora, do problema mais angustiante que é ter a pobreza instalada nesse País", declarou.

Durante a solenidade de lançamento do programa Brasil Sem Miséria, a presidente relembrou o legado de seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, e afirmou que políticas sociais desenvolvidas nos dois governos do ex-presidente incluíram "brasileiros que estavam esquecidos".

"(O programa Brasil Sem Miséria) Ecoa a voz do presidente Lula, cujo governo tive a alegria de coordenar e participar com ele e a honra de sucedê-lo. Não mais vamos esperar que os pobres corram atrás do Estado brasileiro. O Estado brasileiro deve correr atrás da miséria e dos pobres desse País", disse a presidente, relembrando que historicamente os pobres foram deixados à margem da sociedade.

"A população pobre raramente foi vista da maneira que deveria ser enxergada. Tem que ser enxergada como construtora do futuro. Pobre no Brasil foi sempre o grande invisível, desnecessário, assim como no passado remoto muitos olhos ficaram cegos por décadas e décadas para milhões de brasileiros que morriam de fome e sede, que se atiravam em caravanas de milhões para o Sudeste ou em multidões ainda mais desesperadas para seringais do Norte", relatou Dilma Rousseff.

A presidente lançou nesta quinta-feira em Brasília o programa Brasil Sem Miséria, conjunto de propostas de cunho social e econômico que busca retirar da pobreza extrema - o governo considera a linha de extrema pobreza aqueles com renda familiar per capita de até R$ 70 mensais - cerca de 16,2 milhões de brasileiros.

Considerado o eixo principal de seu discurso de posse, em 1º de janeiro, a erradicação da miséria inclui, conforme o Palácio do Planalto, empreendimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), incentivos à moradia previstos no Minha Casa Minha Vida, oportunidades na agricultura comercial para assalariados rurais, investimentos dos bancos Banco da Amazônia (Basa), Banco do Nordeste, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e Banco do Brasil. O objetivo final, de acordo com o governo, é elevar a renda per capita, ampliar o acesso a serviços públicos e aumentar as oportunidades de ocupação e renda.