Ligação eleitoral de Marina com Lula tem prós e contras
Portal Terra
BRASÍLIA - Em um recurso já recorrente, a candidata à presidência da República Marina Silva, do Partido Verde (PV), voltou a usar, nesta semana, sua ligação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como instrumento para garimpar votos no eleitorado que aprova o governo.
Depois de dizer que Lula ainda é inspiração para ela (no dia 1º de junho), afirmar que consegue ler o coração do presidente, e dizer que o povo brasileiro perdeu o medo de eleger um Silva (no dia 16), Marina voltou a falar nesta segunda-feira dos méritos do governo petista e do trabalho realizado por ela enquanto fez parte da equipe do presidente. "Lula provou que era possível crescer distribuindo o bolo. E aí, tiramos, em oito anos, 25 milhões da linha da pobreza, para ter uma vida melhor", afirmou a candidata durante palestra na Unisantos, na segunda-feira.
Mas ao reivindicar para si parte do capital político e do cacife eleitoral que Lula lhe conferiu e atrair votos do eleitorado lulista que não se identifica com a petista Dilma Rousseff, a candidata verde pode estar causando um mal estar dentro de seu próprio partido.
"Talvez haja algum problema ainda durante a campanha, já que tem aí o Gabeira, com uma trajetória mais antiga de resistência ao PT", avalia o cientista política Antônio Carlos Alkmim dos Reis, da PUC-Rio.
Já o especialista em gestão pública Luiz Renato Ribeiro Ferreira acredita que Marina fez um estrago ainda maior: "Ela perdeu a oportunidade de ser uma espécie de terceira via. Foi um erro estratégico de sua campanha", diz ele. Para o estudioso do voto no Brasil, ao citar sua relação com Lula, a candidata verde não consegue os eleitores de Dilma e perde a chance de se diferenciar dos dois adversários mais fortes. "É um erro estratégico, porque ela vinha sendo observada como terceira opção que fugisse ao duelo interminável entre petistas e tucanos", observa ele. "Ela quer uma coisa que não vai conseguir: ser a menina do Lula, quando quem é isso, na verdade, é a Dilma".
O presidente do diretório do PV em São Paulo, Maurício Brusadin, ameniza a tensão interna e diz que, ao contrário da análise do pesquisador, Gabeira não é um típico opositor de Lula. "Gabeira saiu do PV há oito anos porque o partido era contra a aliança com o Lula como ele queria", lembrou. Para Brusadin, os motivos que levaram Gabeira a se afastar do petista foram os mesmos que vieram a separar Marina e o presidente da República mais tarde: a falta de visão ambiental e escândalos que cercaram a gestão.
Apesar de uma rusga ou outra, Alkmim, da PUC-Rio, não crê em uma crise dentro do Partido Verde ou mesmo na corrida eleitoral de Marina. "Esse é o tipo de contradição que vem do nascedouro de sua candidatura. Para a campanha dela entrar em uma crise séria, precisaria primeiro crescer. Por enquanto, ela luta para tirar votos de alguém", observou.
Brusadin não vê incoerência, dentro do PV, entre Marina - com um discurso que remete ao petista - e Gabeira, para quem Lula "frustrou os sonhos" de quem colocou o PT no poder. "Essa coisa de ficar batendo para ganhar não é muito a nossa. O partido está unido em torno do nome da Marina", disse.
Coordenador da campanha da presidenciável no Rio de Janeiro e presidente da legenda no Estado, Alfredo Sirkis visualiza, inclusive, gente do próprio PT dentro de um eventual governo verde. "No caso de Marina ganhar as eleições, a gente convidaria para compor o governo gente do PT, da mesma forma que convidaríamos do PSDB", disse ele. Segundo Sirkis, a candidata segue a cartilha da boa conduta. "Uma das recomendações mais importantes é ser cautelosa, porque, além de corresponder à sua personalidade, é o que as pessoas esperam de uma presidente da República", avaliou.
Do ponto de vista da história do partido, não se trata de contradições, avalia Alkmim. "O PV é um partido meio curinga. Apesar de colocar a questão ambiental, ele se movimenta tranquilamente à esquerda ou à direita. E tende a ficar menos com a posição ideológica e mais com a formulação ambiental, sem ser muito claro em relação a um projeto ideológico para o país", concluiu.
