Cultura contabiliza prejuízos com a Emenda Ibsen

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Bernardo Costa , Jornal do Brasil

RIO - Setor tradicionalmente estrangulado por orçamentos exíguos, a cultura contabiliza os prejuízos caso a Emenda Ibsen passe pelo Senado e não sofra veto do presidente Lula. Artistas e nomes ligados às secretarias municipal e estadual de Cultura entram na luta pelos royalties do petróleo e do pré-sal, diante do risco da paralização de obras e projetos.

O Teatro Municipal vai ser reaberto de qualquer maneira nas próximas semanas. Isso é certo. Mas, caso esse absurdo se concretize, as próximas temporadas serão prejudicadas, assim como os pontos de cultura espalhados pelo estado e a obra de construção da sede de Copacabana do Museu da Imagem e do Som (MIS), entre outros projetos adverte a secretária estadual de Cultura, Adriana Rattes. Pela primeira vez o Rio tem um governo que trata a cultura como prioridade. Tivemos um aumento de quatro vezes no orçamento usualmente destinado à pasta, que nada valerá se a medida passar. Além disso, é importante perceber que os royalties constituem uma compensação aos danos causados pela exploração do petróleo.

A falta de verba para a construção da nova sede do MIS também preocupa a presidente da instituição, Rosa Maria Araújo. .

O Rio está num processo ascendente de resgate de sua auto-estima. A nova sede do MIS, em Copacabana, é um exemplo disso, já que será um lugar de pesquisa da cultura do nosso estado e de sua memória, através da arte observa Rosa Maria. Estamos no meio do trabalho de construção da sede, que depende da injeção de capital do governo estadual e de parceiros. Receio que, se essa emenda passar, esses parceiros se afastem, pois o estado ficará falido e eles terão que arcar com custos muito maiores.

A secretária municipal de Cultura, Jandira Feghali, expressou sua preocupação em relação ao papel da pasta na preparação das Olimpíadas de 2016.

Na viabilização dos Jogos, a Secretaria de Cultura e a de Esporte têm pesos iguais. Em 2012, quatro anos antes das Olimpíadas serem realizadas, acontecem vários eventos a cargo da nossa secretaria no intuito de repercutir no país e no exterior aspectos da cultura carioca destaca Jandira. Essa etapa é oficialmente tratada pelo COI e pelo COB como Olimpíada Cultural. Caso essa proposta do deputado Ibsen Pinheiro passe, todas as políticas públicas serão prejudicadas, inclusive esse nosso encargo.

João Guilherme Ripper, diretor artístico da Sala Cecília Meireles, também teme que as mudanças na lei possam prejudicar a reforma pela qual as instalações passarão nos próximos meses.

O Rio assumiu diversos compromissos que contam com os investimentos oriundos da exploração do pré-sal, e a reforma da Sala é um deles. Temos projetos de modernização dos equipamentos, de melhoria do acesso, principalmente para cadeirantes, e de ampliação da área social, que ficarão comprometidos ressalta Ripper. Além disso, nossa programação será drasticamente afetada. A proposta principal da Sala é a realização de concertos de qualidade a preços baixos. E só conseguimos isso por meio de apoio público. Mesmo com os patrocinadores, os salários de nossos funcionários são pagos pelo estado. Caso ele esteja falido, terei que me ater à bilheteria e aumentar os preços, pois a qualidade será sempre mantida.

Diretora da Casa de Cultura Laura Alvim, outra entidade ligada à Secretaria Estadual de Cultura, Lygia Marina Pires de Moraes também está engajada na campanha carioca contra a Emenda Ibsen.

Hoje vou estar na passeata e já convoquei meu pessoal também. Vou deixar trabalhando apenas os funcionários vitais para que o cinema e o teatro da Casa não fiquem parados informa Lygia. Essa proposta é uma tragédia, principalmente num momento especial que o Rio está vivendo. Depois de tantos anos, conseguimos ter uma integração total entre os governos municipal, estadual e federal. Com isso, a parte cultural passou a andar muito bem. Todos os nossos equipamentos estão em ótimo estado e nas outras salas que frequento também vejo tudo funcionando muito bem. Caso essa emenda passe, num primeiro momento nossos patrocinadores tendem a recuar.

O maestro Roberto Minczuk, diretor artístico do Teatro Municipal e da Osquestra Sinfônica Brasileira, demonstrou preocupação quanto à conclusão das obras da Cidade da Música, destinada pelo governo municipal ao usufruto da OSB.

As obras ainda dependem de recursos para serem finalizadas. Acho que esta emenda constitui uma medida devastadora em relação aos nossos planos e projetos, que são e devem ser ambiciosos comenta Minczuk. Viajo o mundo e percebo que o Rio é a grande referência do Brasil no exterior. Portanto, a cidade tem que ter visibilidade e, para isso, precisa ter conteúdo cultural de qualidade.