Ex-presidente do Detran-RJ nega pressão de Yeda para pagar dívida
Portal Terra
SÃO PAULO - A ex-presidente do Departamento Estadual de Trânsito do Rio Grande do Sul (Detran-RS), Estella Maris Simon, foi a primeira a ser ouvida pelos membros da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Corrupção, na Assembleia Legislativa. O depoimento começou às 15h e terminou às 19h55. Estella disse que a governadora Yeda Crusius jamais a forçou a pagar a dívida que a Atento Service e Logística, encarregada pelo serviço de guincho e depósito de veículos apreendidos na capital gaúcha, afirma que o governo do estado tem com a empresa. Porém, disse que o então secretário da Transparência, Carlos Otaviano Brenner de Moraes, sugeriu o pagamento de R$ 2 ou R$ 3 milhões.
- Eu nunca recebi nenhuma pressão para pagar nada. Inclusive, nessa reunião com a governadora (31 de março de 2009), coloquei o que tinha falado com os advogados da Atento. Ela me perguntou o que eu tinha decidido: 'eu disse que deviam entrar em juízo, porque eu não reconhecia nada do que haviam trazido'. Ela me disse: 'se foi isso que você decidiu, está decidido' - afirmou Estella.
Segundo a ex-presidente do Detran-RS, ela questionou o pagamento de R$ 2 a R$ 3 milhões, sugerido pelo secretário Brenner, ao Detran. Estella indagou como faria esse pagamento se nem ao mesmo reconhecia a dívida. Segundo ela, a governadora encarregou o secretário Brenner de negociar com o Detran. Até então, o órgão respondia para a Secretaria de Administração.
A delegada afirmou que tem um documento no qual a Atento abriu mão de "eventuais créditos passados" que tinha com o governo do estado. Segundo ela, o valor era inferior a esses R$ 16 milhões questionados.
- Depois que tive respaldo da governadora para deixar (a Atento) entrar na Justiça, estava pouco me lixando para os secretários - afirmou Estella.
Escolhida pelo governo para dirigir o órgão após a descoberta da fraude milionária que desviou cerca de R$ 44 milhões do departamento, Estella ficou no cargo de 7 de novembro de 2007 a 4 de maio de 2009. No final da oitiva, ela entregou documentos para a presidente da CPI, dentre eles um relatório com 15 folhas detalhando o sistema de contratação da Atento. A empresa contesta uma dívida de R$ 16 milhões. Estella não a reconhece e o assunto está no âmbito judicial.
Saída do cargo
Estella alegou que tinha "motivos pessoas" para deixar a presidência do Detran-RS e que estava "muito desgastada". No entanto, disse que não se arrepende de ter ficado na presidência do órgão, pois aprendeu lições e serviu como experiência.
Buchmann
O também ex-presidente Detran-RS, Sérgio Luiz Buchmann, que assumiu o órgão em 6 de maio de 2009, foi o segundo a prestar depoimento e reafirmou o desvio de 24% dos recursos obtidos junto à fundação que realizava as provas de motorista no estado.
Segundo ele, 12% dos valores iam para o empresário Lair Ferst e 12% para os demais acusados. No entanto, o então marido da governadora, Carlos Crusius, teria orientado a redistribuição desses valores - 1% ficaria com Lair e os outros 11% com o casal Crusius. A denúncia já havia sido feita por Buchmann em depoimento gravado em vídeo ao Ministério Público Federal (MPF).
O ex-presidente do Detran-RS disse que não tem provas para comprovar o que falou à CPI e ao MPF.
- O que eu espero é que a polícia e a força-tarefa (do Ministério Público) estejam investigando. Eu não fiz nenhum pré-julgamento em cima do que o Genilton (Ribeiro) falou. Narrei porque tinha de narrar - disse.
Segundo Bunchamann, Genilton o procurou para mandá-lo ficar "quieto e não falar mais com a imprensa". De acordo com o ex-presidente do Detran, ao questionar Genilton do por que havia sido escolhido para presidir a autarquia, ele teria dito: "você tem aparência ou fachada de honesto".
Buchmann, que se emocionou a lembrar da prisão do filho Fábio, disse que está sofrendo com toda essa situação. O ex-presidente reiterou a suspeita da armação de uma possível cilada contra ele horas antes da prisão. Fábio, que é filho do primeiro casamento e não mora com o pai, foi preso em casa, em julho, no bairro Cidade Baixa, com 23 quilos de maconha e 500 gramas de cocaína.
Buchmann disse que recebeu a visita de policiais civis e que eles estavam acompanhados do chefe de gabinete da governadora Yeda. Eles teriam ido avisá-lo que seu filho seria preso. Ele afirmou que, durante o encontro com a polícia, recebeu a sugestão de que fizesse contato com Fábio para alertá-lo de que seria preso. No entanto, ele disse ter suspeitado que, se acatasse o conselho para interferir, poderiam ser levantadas suspeitas de uso do cargo para favorecer o filho.
Requerimentos
Durante a Ordem do Dia, a base governista não estava presente na reunião e, com isso, não houve quórum para a votação de requerimentos, e a manobra foi criticada pela oposição.
A próxima reunião da CPI será na quarta-feira, às 18h. Na ocasião, serão ouvidos o atual presidente do Detran, Sérgio Filomena, e Genilton Macedo Ribeiro, secretário adjunto da Administração.
A operação Rodin
Desencadeada em 6 de novembro de 2007 pela Receita Federal, Polícia Federal e Ministério Público, a Operação Rodin descobriu um esquema de desvio de recursos do Detran por meio da utilização de fundações universitárias e empresas administradas por laranjas. Segundo a PF, a fraude lesou os cofres públicos da autarquia em R$ 44 milhões.
Conforme a investigação, sem a abertura de licitações, a organização efetuava contratos para avaliação teórica e prática na habilitação de condutores de veículos automotores com fundação de apoio universitário. Os serviços eram prestados com a utilização da estrutura física e de pesquisadores da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Na fraude, os responsáveis efetuavam subcontratações ilegais, cujos serviços, quando prestados, eram superfaturados.
