Líder petista sai enfraquecido do processo, avaliam senadores
Jornal do Brasil
BRASÍLIA - O recuo do senador Aloizio Mercadante (SP) da decisão de renunciar à liderança do PT no Senado pode enfraquecer a sua atuação política dentro da Casa. A avaliação é de um grupo de senadores que acredita na redução de força política do líder depois que ele criticou publicamente a permanência do senador José Sarney (PMDB-AP) na presidência do Senado mas acabou por atender um pedido do presidente Luiz Inácio Lula Silva e do deputado Ricardo Berzoini (PT-SP), que orientaram o PT a votar pró-Sarney no Conselho de Ética.
O próprio senador admitiu, no discurso em que anunciou sua decisão, que perdeu parte de sua interlocução dentro do Senado depois do episódio que resultou no arquivamento dos processos contra Sarney.
Eu disse à bancada (do PT) e pensei comigo: eu perdi uma certa condição de interlocução política nesta Casa, por exemplo com o presidente Sarney. É evidente. É muito mais difícil ser líder nessas condições, depois de uma crise como essa ponderou.
O senador Cristovam Buarque (PDT-DF) disse que Mercadante errou ao não ter se mantido firme na decisão de se afastar da liderança.
Ele fica insignificante para o Senado. Foi o maior erro que ele cometeu. Ele poderia ser o reformador do PT, mas trocou essa oportunidade para continuar como líder de uma aliança do PT com Sarney, Renan (Calheiros) e (Fernando) Collor. Agora, ele fica sem a menor chance de contestação e terá como papel de líder ser o fiador dessa aliança criticou.
O senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) também disse que foi péssimo para Mercadante recuar de sua decisão.
Eu não discuto a sinceridade dele, mas ele foi desautorizado pelo Planalto. Em uma situação de descrédito generalizado que existe hoje no país, as idas e vindas do Mercadante não contribuem avaliou Jarbas. Mostra que o presidente Lula continua acima das instituições. Não vejo o episódio de forma positiva.
Para o senador Pedro Simon (PMDB-RS), Mercadante deve manter o discurso de que o PT errou ao absolver Sarney. Do contrário, o peemedebista considera que a imagem do petista ficará comprometida na instituição.
Ele só tem legitimidade se não se enquadrar. Ele pode até ficar sem poder, mas deve ficar com o discurso afirmou. Simon disse ainda que a carta de Lula pedindo a permanência de Mercadante foi uma espécie de armação , já que o presidente não encaminharia algo que não fosse acatado pelo senador.
Para Marina Silva (sem partido-AC), a decisão de Mercadante não apaga a crise que a bancada do partido no Senado enfrenta.
O PT tem uma grave confusão entre partido e governabilidade. E entre governabilidade legítima e a qualquer custo. E isso não é bom para a democracia disparou.
República sindicalista
Coube ao governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), contudo, as críticas mais duras contra o comportamento do PT no Senado. Sexta-feira, o tucano disse que o PT se desfigurou e abriu mão de sua postura, sobretudo no campo ético .
O PT tem hoje um grande objetivo, que é manter-se no poder. Manter a república sindicalista que tomou conta de parte da máquina pública federal. Nós nunca vimos um aparelhamento tão grande da máquina pública federal, onde a meritocracia não tem importância, mas a filiação partidária é que prevalece cutucou Aécio. Segundo o governador mineiro, o partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva se assusta com a possibilidade de ter que deixar o poder com o final do segundo mandato de Lula.
Ele (PT) faz concessões que deixa uma mácula, uma mancha grande na história. Eu reconheço que o PT teve um papel importante na vida democrática do país, não nego esse papel. Mas no governo o PT se desfigurou, desde a época do mensalão e agora pela sanha, pelo afã de se manter no poder, o PT abre mão da sua postura, e abre mão de alguns preceitos que o levaram ao poder, sobretudo no campo ético analisou o tucano. Aécio afirmou ainda que o partido passa por um momento muito contraditório . Qual o projeto de país que o PT tem hoje? Nenhum de nós sabe, nem eles sabem. O PT tem hoje, única e exclusivamente, um projeto de poder. E para manter-se no poder tem feito concessões que jamais nós poderíamos imaginar lá atrás.
O líder do PSOL na Câmara dos Deputados, Ivan Valente (SP), também não poupou críticas ao ex-partido e afirmou sexta-feira que o PT perdeu o rumo nas questões da grande política e precisa construir um outro imaginário para seu governo.
Quando o PT assumiu que queria governar com fisiologismo e clientelismo, e desmobilizou a força social de mudança, deveria prever que isso (a crise) iria acontecer observou o deputado durante a abertura do 2º Congresso Nacional do PSOL, em São Paulo. Como ele quer o apoio, de qualquer jeito, do PMDB e de partidos clientelistas e fisiológicos, e não quer apoio popular real, está sofrendo o maior desgaste.
