Muro dá lugar a cerca para reprimir contrabando do Paraguai
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FOZ DO IGUAÇU - As obras da cerca de proteção em torno do prédio da Receita Federal na fronteira entre Brasil e Paraguai, no lado brasileiro da Ponte da Amizade, não só continuam como deverão ficar prontas em julho, afirmou o delegado Gilberto Tragancin, responsável pela fiscalização do comércio entre os dois países.
A cerca seria uma versão mais "light" da construção de um polêmico muro para ajudar na fiscalização entre os dois países, e que foi descartado na sexta-feira pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em entrevista a jornalistas paraguaios na véspera de sua viagem ao país vizinho.
- Muro não vai ter. Foi uma decisão de governo. Muro, chega o de Berlim, chega o do México, agora, com os Estados Unidos, chega o da Faixa de Gaza - afirmou Lula aos jornalistas.
De acordo com o delegado da Receita, a obra na divisa entre os dois países consiste na instalação de uma cerca e de um mirante para que turistas observem a ponte e o rio Paraná.
- Não estamos construindo a muralha de Berlim, mas fazendo algumas obras para garantir o isolamento do nosso imóvel, para que possamos de alguma forma garantir que as pessoas não entrem para resgatar a mercadoria que é jogada da ponte - explicou Tragancin.
Também para o delegado, a construção do muro não faz sentido, já que a área é extensa, de mais de 1,5 quilômetro, mas a cerca é necessária, assim como outras modificações que serão feitas no local.
- Vamos tirar toda as grades da ponte, que estão todas arrebentadas e deixar o ambiente o mais limpo possível - disse o delegado.
DROGAS E ARMAS
Diariamente, dezenas de pacotes envoltos em cordas e pneus são lançados à vista de todos através dos buracos existentes nas grades da ponte até o leito do rio Paraná, na margem brasileira, onde pessoas recolhem o contrabando e tentam escapar da repressão policial.
Alguns conseguem escapar do controle, outros são presos e têm o material apreendido.
Só no ano passado, a Receita recolheu 70 milhões de dólares em muamba, informou Tragancin.
- No meio do contrabando de mercadorias simples achamos muita droga e armamentos, se não tiver controle com algum tipo de isolamento desse local, o nosso efetivo não é suficiente para atender a aduana - disse o delegado.
Com pouco mais de 80 funcionários para cobrir a aduana, hotéis e rodovias, "quando o ideal seriam entre 100 e 110", segundo Tragancin, a Receita conta com a ajuda de 190 policiais da Polícia Federal para as operações de repressão ao contrabando em toda cidade de Foz do Iguaçu.
Na ponte, no entanto, a PF considera o trabalho de coibir o arremesso de mercadorias uma responsabilidade da Polícia Rodoviária, por se tratar de uma rodovia.
A estratégia da Polícia Federal, alojada no mesmo prédio da Receita, em frente à ponte, é fazer apreensões pontuais fora do local, após localizar o depósito para onde são levadas as mercadorias, segundo um policial.
- Em cima da ponte é atribuição da polícia rodoviária, na Constituição isso fica bem claro... a gente dá apoio mas não é atribuição nossa - informou um dos delegados da Polícia Federal em Foz do Iguaçu Adão Luis Almeida.
Mesmo assim, Almeida já participou pessoalmente de uma busca e apreensão em um depósito de mercadorias contrabandeadas pela fronteira. Segundo ele, a ponte é o menor problema da região, uma vez que a maior parte do contrabando, principalmente ilícitos, chega por outros pontos do rio em balsas.
- Estouramos o depósito de madrugada e enchemos um container de 40 pés (12 metros de largura) de mercadoria contrabandeada - disse Almeida, explicando que nesse tipo de ação a Polícia Federal realiza as prisões, quando necessário, e a Receita fica com a mercadoria apreendida para efetuar a representação contra o contrabandista.
SACOLEIROS
Em greve até quinta-feira, a Polícia Federal continua trabalhando em serviços essenciais, o que não inclui a fronteira, apesar dos poucos policiais ali instalados, entre 2 e 6 por dia, comparecerem ao trabalho.
- Mas não fazem operações - garantiu Almeida.
Ele se disse preocupado com a formação de verdadeiras máfias após o aumento da repressão ao contrabando por ônibus, iniciada há cerca de seis meses e que inibiu o trabalho dos chamados sacoleiros, que atravessavam a ponte de ônibus com milhares de dólares em mercadorias sem pagar imposto.
- O melhor seria se o muro fosse mesmo construído, a grade é fácil de cortar e vai ficar mais difícil controlar - avaliou Almeida, que estima em 500 o efetivo de policiais necessários para enfrentar o problemas no local, além de investimentos no armamento e formação da categoria.
No ano passado, uma nova aduana foi construída com objetivo de aumentar a fiscalização.
- É só isso que eles sabem fazer, acabar com o trabalho da gente e ficar lá em cima só ganhando dinheiro com corrupção - reclamou uma sacoleira enquanto contratava por 200 reais o serviço de Edgar, um transportador de mercadorias pela fronteira, que embalava aparelhos eletrônicos em plástico preto.
- Nosso serviço é garantido, não jogamos pela ponte - afirmou Edgar, que apesar da garantia usava a mesma embalagem que diariamente protege os objetos arremessados pela ponte para fugir do controle.
