Quero fazer o meu sucessor, diz presidente

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Agência JB

BRASÍLIA - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva concedeu, nesta terça-feira, a primeira entrevista coletiva do segundo mandato. Apesar de afirmar que não tem a intenção de retornar à presidência da República em 2010, Lula afirmou que quer fazer o seu sucessor e que esse não necessariamente será do PT. Ele disse que, por fazer parte de uma coalizão, o próximo candidato à presidência será escolhido entre seus aliados, dependendo do que as pesquisas apontarem na época.

Ao ser questionado sobre uma possível parceria para as eleições de 2010 com o atual governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), Lula disse que ainda não há nada definido, mas que vai continuar dialogando com os mais diversos partidos. - Daqui pra frente serei um grande conversador e isso vale para todas as forças políticas - afirmou.

Lula disse que a sua intenção é participar do palanque e dos programas de televisão do próximo candidato. - Quero terminar meu mandato em 2010 na condição que candidatos me chamem para ir ao palanque. O que é duro é ninguém te chamar para nada, ninguém te chamar para ir à televisão. Quero estar tão afiado que as pessoas me chamem para ir a palanque - ressaltou.

Lula disse que a única certeza que tem até o momento é de que a base do governo vai ter um candidato para as próximas eleições presidenciais. - O candidato tem que ser tirado do consenso da base. Não necessariamente do PT. Vai ser um candidato da base e hoje você erra se quiser. Você tem pesquisa, hoje uma campanha, tem métodos científicos importantes - continuou.

Questionado se faria o próximo candidato, Lula ironizou: eu esqueci de perguntar ao papa sobre isso.

Lula foi categórico ao dizer que não retornará à presidência da República em 2010 e nem posteriormente, em 2014. - Só a insanidade me faria discutir o que vai acontecer oito anos pra frente - disse.

Ele afirmou que sempre foi contra a reeleição, até que a lei o levou a optar por ela no ano passado. - Por não brincar com a democracia, não cogitarei qualquer hipótese do 3º mandato. Se já era contra o segundo, imagine contra o terceiro - ressaltou.

O presidente disse ainda que quando alguém chega à presidência da República não precisa querer outro cargo. - Depois que chegou aqui não tem nada mais alto para isso, depois se recolhe, vai cuidar da famílias dos netos, vai fazer conferência, vai fazer alguma coisa - disse.

Lula comentou também o momento econômico que o país atravessa. Ele garantiu que o Brasil vive o melhor momento econômico da história. - O Brasil vive o melhor momento econômico da história da República. Agora estamos preparados para fazer o que não fizemos no primeiro mandato - afirmou - Estamos provando que é possível crescer com inflação baixa.

Lula também destacou o bom momento do Brasil na relação com outros países. - Consolidamos a política econômica, junto à política internacional. O País nunca teve uma relação internacional tão boa como a de hoje.

- Acho que não haverá nenhuma discussão envolvendo acordos internacionais que o Brasil não seja levado em conta, que o G20 não seja levado em conta - completou.

Para o presidente, o Brasil melhorou a relação comercial com a América Latina, que passou a ser maior que a com os Estados Unidos e Europa. - Hoje, a relação comercial do Brasil com a América Latina é maior que a relação com os Estados Unidos e Europa. O milagre é que a economia desses países cresceu e deixamos de virar as costas uns para os outros.

Lula defendeu ainda o uso do biodiesel. Ele afirmou ser o "garoto-propaganda" da política energética brasileira e que pretende levar o "pacotinho do biodiesel ao G8".

- Não queremos que os países parem de usar petróleo. Mas querem diminuir a poluição do planeta? Usem combustível renovável - disse o presidente.

Lula também afirmou que pretende estabelecer "um estoque regulador do álcool no país". Para que haja responsabilidade do Brasil em um possível acordo com outra nação, impedindo que o fornecimento de energia pare em qualquer momento. - Não podemos permitir que, no biodiesel, nós cometamos o mesmo erro que cometemos com a cana de açúcar no país - disse.

O presidente disse que o segundo passo, após a implantação da política do combustível, é trabalhar as questões humanas da produção. - É preciso humanizar o setor da cana no Brasil.

Lula voltou a comentar o debate sobre a legalização do aborto. Ele se colocou contra o aborto como cidadão, mas defendeu que o Estado tenha uma política pública "adequada" para a população que tenha uma gravidez indesejada.

- Acho que essa legislação [que define os casos que o aborto é permitido] não trata da veracidade dos acontecimentos do país. Todos vocês sabem, todo cidadão católico ou não sabe que existe no Brasil uma quantidade exagerada de jovens e pessoas que praticam aborto porque tiveram uma gravidez indesejada. Não apenas porque foram violentadas. Porque às vezes ficaram grávidas e não querem ter um filho - disse.

A partir desse cenário, Lula afirmou que o poder público precisa escolher um caminho. Ou "abandonar" essas pessoas para tentarem fazer "experiências" com o seu "pouco conhecimento" ou intervir para ajudar as pessoas a terem um tratamento adequado. - Defendo que o Estado tenha um tratamento adequado - disse.

Lula voltou a dizer que o governo não irá enviar projeto sobre o assunto ao Congresso Nacional. - Se o Congresso Nacional quiser fazer debate, a sociedade civi, quiser organizar um debate, todo e qualquer debate será bem-vindo. Aliás poderia ser feito pela televisão - reiterou em referência ao discurso feito por ele no encerramento do Fórum Nacional de TVs Públicas na sexta-feira.

Sobre a crise aérea, Lula acha que é "um problemão de magnitude quase incontrolável". Ele disse também que mandou o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, debelar a crise dos controladores no dia 31 de março a qualquer custo.

- Cheguei em Washington (para visita com o presidente George W. Bush). Liguei para o Paulo Bernardo. Disse: acabe com essa greve. Não quero greve aí. Naquela época, o ministro prometeu aos controladores que eles não seriam punidos pela greve e que receberiam o abono salarial que estavam pedindo e, além disso, prometeu encaminhar a desmilitarização da categoria.

No entanto, o documento assinado pelo ministro nunca foi aplicado. Os controladores não receberam o abono, estão sendo investigados pela Aeronáutica em Inquérito Policial Militar (IPM) e a desmilitarização foi engavetada pela Aeronáutica.

Lula revelou ainda que quando retornou ao Brasil transferiu o problema para o comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito. - Eu chamei o brigadeiro Saito para uma reunião e disse: esse problema é seu. Resolva, contou o presidente.