Lula quer mesmo é chegar a 2010

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Helena Chagas, Agência JB

BRASÍLIA - A garantia de que não disputará um terceiro mandato consecutivo não foi o principal recado político do presidente Lula na conversa de quinta-feira com jornalistas, como pode parecer à primeira vista. A curto e médio prazos, mais importante foi a revelação de que pretende chegar muito bem ao fim do mandato para influir na eleição de seu sucessor.

Com isso, Lula pode ter riscado o fósforo e se aproximado perigosamente do paiol da sucessão de 2010 - e muito antes do que seria razoável fazer, correndo o risco de deflagrar o processo e ver o tiroteio antecipado, entre pré-candidatos e partidos governistas, inviabilizar seu governo.

Seria ingênuo, porém, supor ingênuo o ex-metalúrgico que se elegeu e reelegeu presidente da República. Se Lula falou em seu papel na própria sucessão, não terá sido por falar. Mais provavelmente, terá se rendido à constatação de que, depois das disputas pela presidência da Câmara e pelos ministérios, sua base parece irremediavelmente dividida. De um lado, o PT, que pode ter o apoio do PMDB, vem deixando claro que dificilmente chegará a 2010 sem

candidato próprio, seja Marta Suplicy, Jaques Wagner, Tarso Genro ou qualquer outro. De outro, as forças do chama do "bloquinho" de esquerda, capitaneadas pelo PSB e pelo PCdoB, mas com chance de atrair outras legendas como PDT, PTB, PR e até setores da oposição.. Esse grupo vai se agregando em torno do ex-ministro Ciro Gomes - que, também não por acaso, recusou convites para retornar à Esplanada.

Lula não ignora esse cenário e sabe que terá que administrá-lo no dia-a-dia, para manter sua base política e conseguir governar bem a ponto de assumir o papel que pretende ter em 2010. É, aliás, o que tem feito nos bastidores. Segundo relatos de políticos do "bloquinho" que têm conversado com o presidente, ele fala muito em candidatura única da base, e chega a afirmar nessas conversas que o PT pode vir a apoiar Ciro Gomes, sim. Por que não?

Bem, todo mundo que conhece um pouquinho de PT inclusive Lula, que conhece muito sabe por que não. Os últimos meses vêm mostran do que, mesmo depois de tudo o que passou, o partido do presidente não baixou a cabeça a e mantém seu ambicioso projeto de poder, que, para alguns, às vezes chega a ser até mais importante do que o próprio governo. Tanto Lula quanto os aliados do "bloquinho" estão, portanto, carecas de saber que são remotas as possibilidades de que em 2010 os petistas venham a montar uma chapa com Ciro na cabeça. Assim como dificilmente o ex-ministro, com o capital político de 2002, deixará de concorrer em favor de um nome do PT. Que hoje, aliás, nem existe ainda.

Mas alimentar o sonho do candidato único do governo, ou, pelo menos, situar-se como árbitro que poderá fazer a disputa interna pender para um lado ou outro passou a ser a principal arma de Lula para administrar as ambições de pré-candidatos e partidos. Ao afirmar publicamente que quer eleger o sucessor e prontificar-se a subir no palanque do companheiro candidato, dando a entender que estará forte o suficiente para ajudar a elegê-lo, a intenção

do presidente não é exatamente sair vitorioso em 2010. É, sobretudo, chegar a 2010 em boa situação. Coisa que só vai acontecer se conseguir segurar ou pelo menos manter sob controle as candidaturas em seu curral.