Mulheres que escrevem
Hoje é o Dia Internacional da Mulher e, coincidência ou não, nas últimas semanas, por motivos de trabalho, caíram em minhas mãos alguns livros novos – para mim – escritos por mulheres. Como não consigo esperar, amo ler e amo a forma como as mulheres escrevem, comecei a devorar todos eles ao mesmo tempo. E que delícia foi isso. E que forte, intenso e, também, doloroso.
É incrível perceber como toda narrativa que vem de uma mulher carrega, em alguma medida, dor. E sofrimento. Já escrevi algumas vezes neste espaço que na minha pesquisa de mestrado estudo o sofrimento psíquico da mulher nos diversos grupos e épocas que ela atravessa. E sempre há sofrimento. Mesmo quando não é para haver. Mesmo quando a história é sobre felicidade. Mesmo quando há uma pretensa leveza. Em algum momento vai aparecer a dor, o sofrimento.
O tal machismo estrutural que tem sido tão falado, estudado, debatido, em linhas gerais é, simplesmente, sobre isso: mulher sofre, sempre sofre. Basta ler as mulheres que escrevem. Já falei de Virgínia Woolf, Sylvia Plath – que estudo na minha pesquisa – (ambas cometeram suicídio), Angela Davis, Conceição Evaristo, Mirian Goldenberg, Silvia Federici, entre outras. Invariavelmente há sofrimento. O livro delicioso de Mirian Goldenberg, sobre o qual também já escrevi aqui, tem o título “Liberdade, felicidade e foda-se”; é leve, gostoso, discorre sobre a felicidade da mulher após os 60, 70 anos, quando ela consegue se libertar de cobranças e tarefas impostas desde sempre pela sociedade, família, trabalho. Mas... antes de atingir esse patamar, a mulher carrega todo o peso, o fardo, o sofrimento, reservados a ela antes mesmo de nascer (machismo estrutural, ou seja, está entranhado na estrutura social que recebe essa mulher já na maternidade).
Voltando aos livros que recebi recentemente, há temas diversos, são de gêneros diversos. Em comum trazem profundidade, reflexão e exposição de fatos que denunciam o sofrimento causado pela estrutura e pela herança histórica que colocam a mulher em posição subalterna, invisível, frágil. No livro “De quem é essa história? – Feminismos para os tempos atuais”, Rebecca Solnit comprova, fato após fato, como o encolhimento compulsório da mulher à vida privada arrancou dela a possibilidade de escrever a própria história. E como mulheres que não se conformaram com o espaço restrito e saíram mundo afora para fazer a diferença tiveram seus passos apagados. Por outro lado, o livro mostra também como estamos em um momento de construção de uma nova história, de novos caminhos para as mulheres. Como movimentos feministas coletivos – o “MeToo”, citado por ela, mas também o “MariellePresente” ou “DeixaElaTrabalhar”, aqui no Brasil, “NiUnaMenos”, contra o feminicídio, na Argentina – podem ser agentes da mudança, de uma revolução gradativa no papel que a mulher desempenha dos grupos sociais.
Em “Quarto de despejo – diário de uma favelada”, de Carolina Maria de Jesus, que fui ler só agora (!), a autora derrama aos olhos do leitor o dia a dia de uma mulher preta, mãe, que criou filhos em um barraco, em São Paulo, e os alimentou com o dinheiro que recebia como catadora pelas ruas da metrópole. Obra de arte literária e social, produzida por quem está dentro do sofrimento. Carolina Maria de Jesus foi descoberta pelo jornalista Audálio Dantas quando ele, ainda repórter, foi fazer uma matéria na região. Audálio não só teve sensibilidade para reconhecer a obra, como também a tornou visível ao Brasil e ao mundo. Visibilidade que tirou a mulher preta da favela e a lançou no cenário intelectual. Pois é. Que o mestre Audálio Dantas sirva eternamente de exemplo para os homens brancos individualistas deste planeta.
De Carolina para Sheyla. “meu corpo ainda quente”, que também veio até mim por causa do meu trabalho, foi o romance que mais me inquietou nos últimos meses. Cheio de indagações, inconformismo e fúria, a obra da jovem Sheyla Smanioto não me deixou um só minuto sem pensar em quem domina o meu corpo de mulher. De quem é o corpo da mulher? Será que é da própria mulher? Ofegante, li o romance em um dia só. Enredo que provocou em mim um terremoto.
Por isso, o artigo de hoje, Dia Internacional da Mulher, é dedicado às mulheres que escrevem. Porque elas inquietam. Provocam. Questionam. Nos fazem refletir. E das reflexões surgem as ações. Das ações, as revoluções. Seguimos.
