Clube do Guri

Por Carlos Fernando Andrade*

Estou certo de que vivo momento bíblico, entre dilúvios e labaredas, conforme o humor do altíssimo, irado com a propagação de seu santo nome, a começar pelo Prefeito, que o trata como correligionário, contrariando o segundo mandamento.

Até que a administração pare de fazer crer que tem despachos semanais com Deus e comece a trabalhar, nossa Sodoma decadente estará amaldiçoada.

E houve tempo, não sei se noticiado, pois, em jornal não logrei informação, mas "Rio de Janeiro operário", coletânea elaborada por Eulália Lahmeyer Lobo, relata o ocorrido. A cidade completava seu milhão de habitantes e a municipalidade terá demolido metade de 2500 barracões. Mantida a proporção, o Rio teria hoje minguados 15 000 imóveis precários...

Evidentemente que estávamos em um país em que a pobreza era maciçamente rural. Mas, ainda assim, a conta da Prefeitura, há cem anos atrás, já era marota, pois o surto de remoções só ocorria nas áreas enobrecidas do Centro.

"O subúrbio é o refúgio dos infelizes", afirma Lima Barreto, e não apenas para nos mostrar, como em "Clara dos Anjos", a dura e injusta condição feminina, mas qualificar a paisagem urbana com palavras tão precisas quanto variadas: "Há casas, casinhas, casebres, barracões, choças, por toda a parte onde se possa fincar quatro estacas de pau e uni-las por paredes duvidosas ...verdadeiros aldeamentos, nas coroas dos morros, que as árvores e os bambuais escondem dos olhos dos transeuntes".

A descrição sugere que a favelização carioca não se restringia ao tal acampamento dos retornados da campanha de Canudos. Aliás, podem ir conferir depois de amanhã, em show, no Bar do Ernesto, Lucio Sanfilippo, que mostra o Jongo, expressão musical nascida nas senzalas, chegando aos morros cariocas, como resultado da partida dos libertos, saídos das plantações de café do Vale do Paraíba em direção à Corte e a completa ausência de acolhida, na área central. O festejado Jongo da Serrinha seria a prova viva desse processo, pelo qual as "coroas dos morros" são ocupadas.

Já quando o Rio estava prenhe de capitalidade republicana, tanto que, em trecho do romance de Barreto, comentam-se os preparativos para a comemoração do centenário da independência, o número de infelizes suburbanos já estava em franca expansão.

Seria de se esperar que, contrariamente, tendo o Rio entrado em retração, a favelização, igualmente, diminuísse. Infelizmente, ocorreu o oposto e já não há bambuzal que esconda.

Se tomarmos apenas a região que já não se chama suburbana, mas atende por AP3 (Área de Planejamento 3), veremos que sua população, aliás imensa - mais de três milhões de almas - decresce, em números absolutos, enquanto a população favelada aumenta, o que só é admissível, considerando o êxodo do segmento não-favelado.

Com as mais recentes chuvas e os trágicos acontecimentos que descem com elas, favelas deixam de ser matéria das páginas policiais e descobre-se que há ali mais do que traficantes, terroristas e facínoras em variadas formas, mas pessoas que improvisam casa, trabalho, sustento... e reiteradamente a chuva joga "seu barraco no chão, que acompanhou morro abaixo a canção", como, há décadas, cantou Sergio Ricardo.

Poesia a parte, enquanto improvisam a vida, por vezes, um atalho as seduz: the voice kids ou escolinha de futebol.

Vale o sacrifício, dizia a mãe faxineira, o pai biscateiro, a avó pensionista que sustenta a família e, que sempre achou que tinha voz para cantar no Clube do Guri.

Não tinha era vestido para ir à TV Tupi, no tempo em que a mãe já não atendia o apito da fábrica de tecidos, último emprego formal da família, quando o Rio já ia deixando de ser operário. Já são três gerações que nunca viram carteira assinada. Mas não se lastima: das "paredes duvidosas", o mais novinho está saindo para ser jogador de futebol. Semana que vem, Deus permita, teremos notícias dele.

* Arquiteto e urbanista, DSc