Os meninos do Ninho

Por Vagner Gomes de Souza*

Foi uma semana em que o Ministro da Economia fez inúmeras declarações à imprensa sobre a ineficiência da participação do Estado no cotidiano da sociedade brasileira. Variadas propostas de Reforma da Previdência foram "vazadas" nos meios de comunicação com inúmeras possibilidades e análises em torno de uma iniciativa que visa economizar para garantir o futuro dos investidores do capital financeiro. Analistas do mercado de capital soaram as trombetas de uma futura tragédia que cairia no país. Um grande mal precisa ser evitado para garantir as finanças públicas. Em favor de quem? Certamente não será em favor dos meninos do Ninho.

O futuro é um tempo que se mede pela abstração de um tempo contado em números. Entretanto, a realidade é mais dura para as camadas populares no país do futebol. O sistema financeiro em sobressaltos a cada boletim médico sobre a saúde do mitológico presidente. Bolsa cai e dólar sobe num instante febril. E inúmeros meninos sonham com o sucesso de Messi, Cristiano Ronaldo, Neymar JR e tantos outros na vastidão desse país. Precisam se valer de seu dom na nação das desigualdades sociais.

Nessa pátria amada, o futebol respira em muito os traços históricos de nosso desenvolvimento como país de capitalismo tardio. O talento das crianças são "peneiradas" sob olhares de muitos empresários que criam vínculos com meninos sonhadores de estarem um dia ganhando em euro. Então, a medida que os defensores do mercado dormiam para despertar num novo dia na negação dos esforços dos servidores públicos, um provável curto-circuito no Centro de Treinamento do Ninho do Urubu do Flamengo nos fez despertar mais tristes ao perceber que existem esses meninos esquecidos pelos mais afortunados.

Os meninos do ninho estão vivendo aos milhares seus sonhos nesse país em que o futebol na lógica do capital - já denunciado em Chapetuba Futebol Clube do dramaturgo Oduvaldo Vinna Filho - ainda não se modernizou de forma democrática. As cifras investidas para garantir o futebol como espetáculo não parece ainda ser o suficiente para sair do silêncio tamanho segmentações que foram acolhidas como naturais. A população fica consternada e ficamos sempre no aguardo de outra fatalidade. Contudo, se o futebol é uma "caixinha de surpresas", o lugar reservado as camadas populares no atual momento de liberalismo voraz não será de tranquilidade.

Devemos lembrar que o espírito de unidade das torcidas brasileiras ao Flamengo é um valor que precisa ser resgatado no enfrentamento de problemas tanto no futebol quanto na garantia da seguridade social. Para começo de reflexão, imaginem se há muitos clubes de futebol em atraso na contribuição previdenciária. Além disso, os grandes lucros do futebol profissional poderiam ser um elemento para reforçar o caixa da seguridade social. Momento dolorido quando constatamos que se abriu mais um vazio nessa geração de jovens da camada popular. A vida segue mais triste sempre que se olham as imagens dos meninos do ninho que resgatam outras imagens de outros momentos trágicos que se sucedem no país da modernização conservadora.

*Mestre em Sociologia e professor de História