Famílias, sonhos e ninho da eternidade
"Sonho meu, sonho meu, vai buscar quem mora longe, sonho meu." Este é um dos trechos de uma canção, que, na minha ótica tem muito a ver com os saudosos meninos da base do Flamengo desaparecidos no incêndio no Ninho do Urubu, no dia 08/02/19. No meu quarto livro, dei o título de "Família catedral de sentimentos e de sonhos" (poderia ter colocado: templo, abrigo, ninho), porque, nesse "ninho," são acalentados os objetivos do núcleo humano, visando ao futuro de cada qual.
Os sonhos despontam na primeira infância, em suas origens e, a partir dela, são demonstrados os talentos. Assim é para os jovens atletas de futebol. Pais, familiares e admiradores das qualidades dos infantes os incentivam a buscar voos mais altos em outras plagas, como no caso dos dez meninos que tentavam, no Flamengo, os sonhos de tornarem-se grandes atletas, ídolos. Deixaram as suas famílias, muitas distantes e alojaram-se na estância rubro-negra, o Ninho do Urubu.
A distância não separa os corações, disse o poeta. Curtindo saudades, eles iam se preparando-se e acalentando o sonho de chegarem à equipe profissional, tal qual Raul, Zico, Leandro, Mozer, Junior, Gerson, Nunes, Paquetá, Vinicius Jr e tantas outras feras que encantaram a nação rubro-negra e o mundo afora.
Deixaram o aconchego de seus lares humildes e, curtindo o calendário inexorável, ficaram por aqui, na agradável expectativa de atingirem o clímax, o quanto antes. O primeiro ninho, pós concepção, é a vida intra-uterina, por nove meses; o segundo são os colos dos pais e o terceiro, desde a tenra idade ao ciclo infanto-juvenil, o colo do mundo.
Dez adolescentes, dez sentimentos de esperança de virem a conviver com a fama e o sonho de buscarem quem mora longe, os pais e familiares distantes e proporcionar a eles o conforto e melhor qualidade de vida, "no tempo e no espaço" (meu jargão).
O festejado jornalista rubro-negro, Renato Maurício Prado, na página de esporte escreve que os dez meninos foram os "Anjos de chuteiras." O JB (09-02-19) sentencia: "Dormitório em contêineres, sem certificado dos bombeiros e alvará da prefeitura, pega fogo no Ninho do Urubu e mata 10 jovens, entre 14 e 16 anos, no Flamengo." Muito triste; terrível tragédia. Lamentável.
Pois bem, eles dormiram sonhando (o homem quando sonha é um Deus...), com futuro como do Zico, ao seu tempo e o de hoje, de Paquetá, Vinicius, Vizeu, entre outros. E lá se foram as suas fantasias, vidas preciosas de jovens que estampavam alegria e sorrisos, como se vê nas fotos estampadas pelos meios de comunicação.
Neste início de ano de 2019, tragédias e mais tragédias, vidas e mais vidas ceifadas pelo descuido das relapsas autoridades, que se esqueceram do trinômio: prevenção, proteção, fiscalização e aí, dá no que dá e no que deu, em Brumadinho, Rio (enchentes e incêndio).
Em verdade, em verdade, estamos todos tristes e de luto com os últimos acontecimentos pelas vidas apagadas impiedosamente. Que Deus se apiade de todos os familiares, que, no caso dos meninos, alimentavam a esperança de verem os seus pimpolhos brilhando com o manto rubro-negro nos gramados brasileiros e no exterior.
Temos que seguir em frente, torcendo para que nada disso aconteça mais, embora reconheçamos ser difícil, pois, ao que parece, as "otoridades" preferem olhar os problemas pelo "olho da nuca," isto é, querem ignorar; é a impressão que fica.
Esperamos que não surjam situações adversas no campo político-econômico-social, que venham a atrapalhar a recuperação da economia, pois o Brasil precisa encontrar -se com ele mesmo rumo ao norte para o desenvolvimento sustentável.
Aprendemos que ao se acender um palito de fósforo provoca-se um incêndio ínfimo; imagine-se o do alojamento, que torrou os dez jovens lá no Ninho do Urubu, tornando-os tochas de fogo, onde, por certo, não havia equipamento de proteção individual que pudesse ser usado, se tivesse tido tempo para tal.
Consta que os contêineres que pegaram fogo no centro de treinamento seriam desativados em poucos dias, e os meninos transferidos para outras instalações mais confortáveis do CT. Veio a fatalidade e os "acidentes acontecem." Os sonhos foram chamuscados. Com isso, os jovens não puderam ir buscar quem mora longe, como o acalentado, o desejável, dias, meses antes. Descansem paz, nossos irmãos em Cristo; descansem aí no Ninho da eternidade!
* Advogado, jornalista e escritor
