Próximo do infinito
Estamos rememorando o fantástico ano de 1968, que Mestre Zu não deixou que suas glórias tornassem somente um cortejo de horrores (obrigado, Fernandinha). João Moreira Salles nos explode em alegria e lucidez em intenso agora, mantendo em nossa lembrança e ensinando que esta brava gente brasileira não está somente no relicário do filho de Gonzagão, porque eu acredito é na rapaziada que segue em frente e enfrenta o leão. E assim foi aquele ano de 1968. Com coragem, dor, lutando para estarmos em um sublime “calabouço” da liberdade. Lá se foram 50 anos, e este gatão de meia idade, rendeu bons filhos. A pílula, a Tropicália, os Mutantes, os festivais da canção, o ideário pacifista, a consolidação dos direitos civis, Rose Parker, a travessia de Selma, vem vamos embora quem sabe faz a hora não espera acontecer, apesar de você. Indubitavelmente, toda a graça de cidadania daquele 1968 ficou represada até abril de 1984. Vou explicar.
Fora inesquecível aquele 10 de Abril de 1984. Caminhávamos pela Avenida Presidente Vargas. Éramos uma multidão, a maioria simplesmente de rapazes e moças latino-americanas, sem dinheiro no bolso e nenhum amigo importante, alguns vindos do interior e outros da periferia. Marchávamos, com lenço e documentos, o primeiro era para conter as lágrimas da emoção que teimavam em escorrer em nossos rostos com gosto de sal; e o segundo, o intacto título de eleitor. Havia no ar uma bruma de esperança, que em outras épocas federiam igual ao enxofre do gás lacrimogêneo. Não, não estávamos comemorando o centésimo dia do ano, tampouco iríamos saudar a saída do Titanic. Bem, na verdade, em nosso lúdico iríamos admirar um palanque, que até poderia ser o famoso transatlântico ao qual nós sabemos seu fim. Coincidência igual ao do palanque, só que não fora um iceberg, mas sim o Congresso Nacional (são simétricos?). A orquestra do palanque era composta por todas as lideranças políticas de nossa nação, que catalogavam um destino melhor para nosso país, por meio de eleições diretas e livres; não havia uma coloração única, e sim um arco-íris que reverberava uma saudação: Diretas Já!
O pesadelo dos anos de martírio chegara ao fim, Herbert de Souza estava entre nós, empunhando sua armadura e montado em rocinante, e divagando com Sancho. Para regozijo coletivo surge no palanque um senhor octogenário de voz fraca, mais com palavras triunfantes que bradou: “Todo poder emana do povo e em seu nome será exercido!”. Era Heráclito Fontoura Sobral Pinto (hodiernamente, poderia nos lembrar da cena de “Rei Leão”, quando o rei Mustafá, pai do pequeno Simba, o apresenta ao reino). Caminhávamos de volta para casa com a roupa encharcada de emoção e alma repleta de esperança. Milton Nascimento revelava novamente sua magia, lembrando-nos que tínhamos corações de estudante. E quanto a nós, sonhávamos por uma pátria livre e democrática. Chegara o fatídico 25 de Abril e, com ele, a hecatombe em nossos sonhos. Foi doído. Elegeram Tancredo e, com ele, ressurgiu um sopro de esperança. Após uma travessia de angústia e incertezas, vimos um soldado de nosso Exército, precisamente do Batalhão da Guarda Presidencial, os “Dragões da Independência”, debruçado na urna mortuária de nosso presidente que não fora empossado, outra tragédia nos abatera; mas aquela cena do soldado, para mim, significava o fim da ditadura militar. Passados esses anos de agonia (inflação, impeachment, inanição social, escândalos políticos envolvidos em tenebrosas transações etc.) e êxtase (pô, fomos campeões mundiais duas vezes).
Mas e agora, José? Dizia o poeta. Não deixemos, novamente, nossos sonhos se diluírem. Porque não vejo, não sinto, não ouço mais homens públicos, no sentido exato do termo sociológico, como descreve Richard Sennett (“O declínio do homem público – Editora Record), a consciência política padece de uma severa inanição social.
Desde daquele Abril de 1984, as esperadas mudanças políticas não instrumentaram a Pátria Amada com homens que arassem um futuro digno. Estamos em uma sociedade maniqueísta, com bufões de todas as classes sociais literalmente entorpecidos, aos quais se divertem comprando sua alegria com meninos que compõem estatísticas policiais e não escolares. As passeatas ou comícios políticos se esvaíram de maneira quantitativa e qualitativa. Repito, não temos homens que velem os bens públicos! E sim se locupletam. E pensar que há 130 anos tínhamos seres humanos escravizados e, hoje, ainda os temos, sobretudo politicamente.
Até quando seremos iludidos, vilipendiados em nossa dignidade? Porque “A casa e a rua” (Da Matta) estão em ruína, sendo carcomida por uma elite política descompromissada com o ideário que reuniu um milhão de pessoas naquela tarde. Por fim, lembremos do poeta Mário Quintana: Poeminho do contra todosessesque aí estãoatravancandomeu caminho, elespassarão... Eu passarinho! Assim sendo, tenhamos a mesma coragem daquele 10 de abril de 1984, para mudar definitivamente nosso rumo, porque estamos bem próximos do infinito da injustiça sócio-política. Espero que em 2034, quando comemorarmos os 50 anos, possamos olhar para trás e aplaudir nossos homens públicos que hoje ocupam os assentos republicanos, e que ecoe a voz de Mustafá do palanque da Candelária.
* Professor universitário
