As festas natalinas e a sensibilidade sazonal
Faltam poucos dias para o Natal. Nesta época do ano é comum que junto aos enfeites metalizados e arranjos luminosos, muitos sejam acometidos por um repentino espírito filantrópico e suposto altruísmo. No entanto, entre o badalar dos sinos dourados, renas saltitantes trabalhadas no glitter, e estrelas cadentes brilhantes, nem tudo que reluz é ouro. Por vezes bem dissonantes do comportamento cotidiano, há os “sensíveis sazonais”: aqueles que se apiedam dos menos favorecidos e se mobilizam em torno da cotização de roupas e brinquedos para crianças ou se dedicam à distribuição de cestas de alimentos, mas que, contraditoriamente, ao longo dos outros dias do ano, seguem sem cultivar qualquer empatia pelo outro. À exceção da semana natalina, permanecem gélidos, defendendo impiedosas ideias ou práticas. Com o dedo em riste, julgam o semelhante, que gostariam de não considerar tão semelhante assim, e determinam o que seriam os bastiões da boa conduta. No entanto, ao que parece, o fim do mês de dezembro enternece até mesmo os corações mais vociferantes.
Certamente, há os que agem verdadeiramente de maneira fraternal, e no âmbito das ações coletivas, existem iniciativas consolidadas, que, embora não solucionem efetivamente as desigualdades, minimizam os efeitos nefastos do desequilíbrio social sobre os que possuem menos. É o caso do programa “Natal sem fome”, idealizado pelo sociólogo Herbert de Souza. Implantado em 1994, foi suspenso por 10 anos e retornou à ativa em 2017, devido à probabilidade de retorno do Brasil ao mapa da fome. Ao congregar vários setores da sociedade, de diferentes naturezas, em prol de um objetivo comum, o projeto estabeleceu diálogo entre atores distintos, construindo, assim, ação cidadã que extrapolou o fornecimento de alimentos. Nessa direção, para nutrir a alma infantil, destaca-se a campanha “Papai Noel dos Correios”. A partir da ideia de um grupo de empregados sensibilizados com as cartas infantis endereçadas a Noel, há quase trinta anos a empresa Correios convida a população a apadrinhar crianças e realizar seus pedidos.
A tradição do Natal e a carga simbólica a ela atrelada podem ser observadas em vários períodos e formas de arte no Ocidente. Na Idade Média a estatuária cumpriu papel fundamental na divulgação da mitologia cristã, quando a população, em sua maior parte iletrada, compreendia as passagens da Bíblia a partir das esculturas dos santos e não por meio das letras. O teatro medieval, por sua vez, não se baseava em texto escrito e os enredos eram inspirados na Bíblia. A pintura, sob a forma de afrescos, vitrais ou telas, perpassou épocas e estilos referindo-se ao mundo católico. Desde as séries imagéticas de Giotto, como “As Cenas da Vida de Cristo”, da “Capela Scrovegni” à “Sistina”, de Michelangelo, passando pela “Última ceia” de Leonardo da Vinci, ou mesmo por obras mais recentes de pintores como Portinari, é possível reconhecer elementos que se ligam à cultura natalina e reforçam os ideais de solidariedade. Em nossos dias a arte cinematográfica explora histórias de Natal de forma recorrente e, assim como os comerciais de TV, não raro, o fazem de maneira excessivamente lacrimosa e sentimental, e, até mesmo, maniqueísta.
Fato é que as comemorações de fim de ano conjugam relações sociais, culturais, históricas, e de mercado, reunindo interesses múltiplos além da religiosidade em si. Mas o que seria o verdadeiro espírito natalino em uma sociedade tão desigual como a brasileira, cujas elites exercem seu egoísmo aos berros e defendem seus privilégios a qualquer custo? Como explicar o benfazejo súbito de quem soa tão bélico a maior parte do tempo? Culpa? Hipocrisia? Não se trata de dispensar a gentileza, ainda que fugidia, tão importante para o equilíbrio da convivência em sociedade. Tampouco não significa ignorar a dose de bondade em atos que podem minimizar carências momentâneas e servir de alento para aqueles que vivem realidade tão dura. Em meio a tanta aspereza, uma refeição, um brinquedo ou mesmo um olhar mais terno podem se transformam numa lufada de otimismo e crença na humanidade. É bálsamo certeiro para as vidas rascantes. Mas é necessário ir além. Não precisamos de heróis caridosos, mas de justiça social. Dividir equilibradamente as riquezas de forma permanente. Alterar a balança atual, na qual pouquíssimos possuem muito e uma imensidão sobrevive com quase nada. Só então a caridade não mais seria necessária. Então restaria a benevolência genuína, aquela que se caracteriza por desejar ao próximo nada menos do que se deseja para si mesmo, e por semear amor e respeito ao irmão – tal qual propagou o aniversariante deste dia 25...
* Artista profissional, mestre em Teatro e doutora em Ciências
