Um dia muito especial

Por ADIR BEN KAUSS*

Hoje é a véspera do desfecho das eleições gerais de 2018. Amanhã será um dia muito especial para o futuro da democracia brasileira.

No Rio de Janeiro, a disputa para o governo estadual se dá entre dois candidatos oriundos da direita, formados pelo ideário conservador e que jamais se incorporarão às lutas populares por uma sociedade mais igualitária e participativa, o que explica a neutralidade de Bolsonaro na disputa – ele quer para si os votos do eleitorado reacionário dos dois postulantes.

Esses dois candidatos trafegam na política convencional, com acusações entre si, ambos com razão em suas denúncias, mas sem propostas eficazes para o enfrentamento das grandes questões que interessam à população. É o mais do mesmo. Há muito não se via uma campanha de tão baixo nível político.

Já a eleição para Presidência da República requer maior preocupação, pois um novo projeto de Brasil poderá sair das urnas amanhã. Se a vitória de Bolsonaro se confirmar como as pesquisas indicam, o país abraçará de vez a proposta neoliberal, com a redução do papel do Estado, o fortalecimento da economia de mercado, o incentivo às PPPs (Parcerias Público-Privadas), o que significa a privatização das atividades essenciais e estratégicas do Estado Brasileiro.

Esse projeto retrocede a uma fase pré-ditadura militar que apesar de suas mazelas, para surpresa de muitos, se caracterizou como nacionalista e estatizante, frustrando seus ideólogos na área econômica, Eugenio Gudin e Roberto Campos, liberais convictos, antiestatais e absolutamente perfilados aos interesses econômicos dos Estados Unidos. Bolsonaro, se vitorioso, viverá um contundente conflito entre as forças oriundas da caserna e setores populares que o apoiam e os interesses dos grandes grupos transnacionais que hoje, com certo contragosto, incorporam-se à sua candidatura.

Do ponto de vista dos costumes, das lutas em defesa da pauta dos direitos humanos e das minorias, da liberdade de criação e produção da cultura libertária e humanista, o país viverá um grande retrocesso. Os conceitos simplórios do candidato sobre esses temas produzirão um efeito devastador nas conquistas até então obtidas que, com tantos recuos e avanços, vencendo preconceitos e incompreensões, inegavelmente ajudaram a sociedade como um todo a evoluir para um estágio mais avançado de solidariedade e tolerância.

Porém, não há razão para desespero, caso esse manto escuro recaia sobre a nação, pois ele também, como a outra face da moeda, estimulará as forças vivas da sociedade a reagirem ao obscurantismo e à distopia que interditam a convivência com a diversidade. Impossível imaginar hoje nosso país, com instituições democráticas estáveis e amplo acesso às informações, sucumbir a uma onda autoritária em que prevaleça uma só opinião pairando sobre a complexidade do humano e suas relações individuais e coletivas.

Se, por outro lado, o inesperado acontecer - tudo é possível quando se trata do processo social - e uma eventual vitória das forças progressistas ocorrer, a festa deverá ser celebrada com alegria e emoção. Afinal, essa foi uma campanha dura e sofrida. Quantos desacertos de rota foram cometidos que hoje estão a exigir de todos uma sincera autocrítica.

O reconhecimento desses erros exigirá humildade em aceitar os equívocos cometidos, tanto na forma como se conduziu nos quase 14 anos de governo, como também nas relações políticas com aliados e adversários, muitas vezes confundindo, desorientando e turvando o projeto de construção de uma nação justa e digna voltada para seus filhos mais desassistidos. Oxalá que, se essa vitória de fato acontecer, as lideranças responsáveis pela condução do país não se ceguem pelo triunfalismo e soberba.

Qualquer que seja o resultado destas eleições, independentemente dos números finais apurados nas urnas, o país sai profundamente dividido. Terminada a ressaca da celebração da vitória ou do luto pela derrota, é preciso entender que o Brasil é maior que tudo e exige que suas forças sociais se reorganizem no sentido de garantir o bem-estar da população e aprofundar as conquistas da justiça e da igualdade entre as pessoas. Sigamos em frente, o futuro pertence a todos nós, principalmente aos brasileiros que virão.

* Arquiteto e urbanista