'Ou seria assassinado ou morreria de depressão', diz Jean Wyllys
Em Berlim, Jean Wyllys diz que só volta no fim do mandato de Bolsonaro
O ex-deputado federal Jean Wyllys deu sua primeira entrevista coletiva, ontem, em Berlim, no Instituto Rosa Luxemburgo, após deixar o Brasil em janeiro, por ter sua vida ameaçada. Reeleito em novembro pelo PSOL, ele abriu mão do cargo, no que seria seu terceiro mandato consecutivo na Câmara. Wyllys explicou que sua primeira aparição pública na estreia do filme "Marighella", no Festival de Cinema de Berlim, na última sexta-feira,foi para prestigiar o amigo Wagner Moura, diretor do filme.
Ao ser perguntado como é ter de deixar o país e o mandato político, Jean Wyllys se mostrou abalado e muito emocionado. O ex-deputado contou ter sido uma decisão muito dolorosa. "Deixei meu sobrinho, meus irmãos, minha mãe, meus amigos. Mas não era uma vida a que eu estava tendo. Não podia ir ao cinema, ao teatro, estava recebendo ameaças, pelos emails dos meus irmãos, não era vida, estava deprimido. Ou seria assassinado ou morreria de depressão", afirmou.
Wyllys repetiu várias vezes que deixou o Brasil para preservar a sua vida. "Que um mártir nós já temos", fazendo menção à vereadora Marielle Franco, do PSOL, assassinada em março de 2018, no Rio. Além da vereadora, o motorista do veículo, Anderson Pedro Gomes, também foi baleado e morreu. O crime, um ano depois, ainda não foi esclarecido.
Quando foi questionado por um repórter alemão sobre o Twitter de Jair Bolsonaro em reação ao comunicado do deputado sobre a decisão de deixar o Brasil, Jean Wyllys respondeu: "Não basta ser um energúmeno, um incompetente, uma pessoa que esteve 30 anos no Parlamento e não produziu nada. Não basta ser um imbecil e incompetente que nada sabe sobre economia, políticas de saúde, educação, moradia e infraestrutura. Tem de ser esse debochado, esse moleque que trata a democracia dessa maneira. Ele só confirmou a minha decisão, só me deu razão de que o Brasil não era mais um lugar para mim".
Perguntado se pretende voltar ao Brasil, ele disse que sim, mas apenas quando o governo Bolsonaro terminar. "Posso voltar quando essa noite passar e essa noite há de passar, porque a noite não dura para sempre".
Ele disse que está em Berlim e que pretende ficar como estudante e também que recebeu uma oferta de asilo político do governo francês, mas que não aceitou. "Há outras pessoas que precisam de asilo político mais do que eu". Pretende ficar como estudante ou pesquisador.
"Minha vida ainda está se assentando. Estou em Berlim, não tenho moradia, conto com ajuda de amigos. Ainda não tenho um novo trabalho. Provavelmente vou me inscrever em um programa de doutorado. Existem conversas com instituições que podem me receber como pesquisador, mas ainda não há nada acertado".
O ex-deputado disse também que pretende continuar a fazer política, a lutar pelas causas que sempre lutou, como pela vida e igualdade de direitos LGBT, mesmo no exterior. "A minha decisão foi um ato de preservação da minha vida e proteção da minha família, mas foi também um recado político ao mundo. Uma maneira de deixar de naturalizar o que estava sendo naturalizado no Brasil. Acho que esse recado já foi dado e essa voz permanecerá falando, ainda que no momento eu me recolha um pouco mais porque estou emocionalmente ainda muito afetado com tudo o que aconteceu. É possível fazer política fora do Parlamento". Jean Wyllys ressaltou que está preocupado, pois sua mãe ainda recebe ameaças e sua família está no Brasil.
