Negociação com o velho MDB
Conversa de Alcolumbre com o partido incomoda aliados que ajudaram na sua eleição no Senado
A ala anti-Renan do Senado trabalhou para execrar a velha política, mas nem tanto. Após se tornar presidente da Mesa Diretora, Davi Alcolumbre (DEM-AP) já negocia a liderança do Governo com o velho MDB.
Ele é a ponte entre o líder emedebista, Eduardo Braga (AM), e o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, colega de partido que viabilizou a sua vitória na disputa pelo cargo que ocupa, para convencer o presidente Jair Bolsonaro a aceitar o senador Fernando Bezerra (MDB-PE), aliado de Renan Calheiros (MDB-AL), como o melhor nome para mediar, com os senadores, a votação de medidas amargas que o governo deve submeter ao Congresso como a Reforma Previdenciária e o pacote anticrime o ministro Sérgio Moro, da Justiça.
Lorenzoni deve receber Bezerra amanhã para discutirem o assunto, mas somente Bolsonaro baterá o martelo.
Bezerra é aquele que, nas conversas preliminares, prometeu votar na senadora Simone Tebet (MDB-MS) na disputa interna contra Renan Calheiros para definir o candidato da legenda à Presidência, mas na última hora mudou o voto para Renan, alegando que não queria levar a disputa para o segundo round, já que seu voto cairia no empate.
Ele já vinha pleiteando a liderança do governo durante as tratativas anteriores à votação da Mesa que culminou com a derrota de Renan. Não são apenas as qualidades como bom articulador de Bezerra - líder do governo Temer até dezembro do ano passado - que despertam no governo o interesse por tê-lo na liderança. A ideia é neutralizar a força política de Renan na oposição às matérias de interesse do governo.
Caso Bolsonaro aceite a indicação do senador, que foi ministro da Integração Nacional no governo da petista Dilma Rousseff, a ala renanzista terá presença em dois importantes postos: a liderança da maior bancada da Casa, com 13 senadores, e a liderança do governo.
Nas negociações com o MDB, Alcolumbre cedeu ao partido a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), mas impôs o nome da senadora Simone para presidir. O partido já ocupa a Segunda Secretaria, com o senador Eduardo Gomes (TO) e deve comandar também a Comissão Mista de Planos, Orçamento Público e Fiscalização (CMO), por meio do senador Marcelo Castro (PI).
As negociações de Alcolumbre com o velho MDB incomodam aliados que trabalharam por sua vitória, uma vez que há outros nomes que poderiam ocupar o cargo, como Tasso Jereissati (PSDB-CE), que chegou a renunciar à candidatura em favor do democrata e era visto como indicação natural para um cargo importante.
"O que se lê claramente é que Davi e Onyx fazem uma leitura equivocada da relação que deve haver entre o Planalto e o Senado. São amadores que sofrem a pressão diante de um grupo que já percorre o governo há 35 anos", diz um importante integrante do grupo anti-Renan.
Outro nome sugerido ao presidente da Mesa é o do senador Esperidião Amin (PP-SC), experiente político que poderia atrair o apoio da sua bancada, com seis parlamentares.
Além da resistência dos aliados de Alcolumbre, Bezerra enfrentará outro obstáculo à sua indicação, com a apuração de uma suposta fraude no processo de eleição da Presidência do Senado, quando foram contadas 82 cédulas de votação para 81 senadores que votaram.
As cédulas trazem a assinatura de Bezerra, que secretariou a Mesa, sob a presidência de outro emedebista, o senador José Maranhão (PB).
O corregedor, senador Roberto Rocha (PSDB-MA), inicia esta semana a apuração do caso. A Polícia Legislativa encaminhou as imagens do escrutínio e, caso seja comprovada a fraude, Bezerra terá que se defender.
