"Se pular a cerca, vai levar tiro"
Um inexplicável esquema de segurança exauriu os jornalistas que cobriram ontem a posse do presidente Jair Bolsonaro. O grupo teve que chegar às 7 horas no Centro Cultura do Banco do Brasil, onde funcionou o gabinete de transição, para de lá seguir, em ônibus, para os vários locais que abrigaram as cerimonias de posse, que só tiveram início às 15h. A pior situação foi vivida por aqueles credenciados para cobertura no Palácio do Itamaraty, último evento. Foram 12 horas de espera em uma sala até a chegada do presidente e seus convidados depois das 19 horas.
Embora houvesse horários escalonados para as saídas dos ônibus entre 8h e 11h30, todos os jornalistas foram orientados a se concentrarem entre 7h e 7h30 no CCBB. Sem entender as razões de tamanho rigor, que obrigou jornalistas a aguardarem em uma salinha no subsolo do Palácio, cinco jornalistas estrangeiros abandonaram a cobertura após seguranças do Itamaraty confiscarem as garrafas de água mineral que portavam.
A espera exaustiva não foi a única tortura a que os jornalistas foram submetidos na posse de Bolsonaro. Repórteres, fotógrafos e cinegrafistas não puderam transitar entre uma área e outra, nem circular livremente no meio do povo. Em cada ônibus, havia assessores que orientavam os profissionais a não descumprirem a regra de ficar no mesmo local onde foi deixado. “Para a segurança de vocês, não pulem as cercas”, disse o assessor aos profissionais que se dirigiam ao Parlatório. Em outro ônibus, ele foi mais direto “se pular a cerca, vai levar tiro”. Houve restrições em relação a alimentos e nem água foi permitido levar.
Outra atitude não explicada foi a proibição de levarem maçãs, a não ser que fossem cortadas em pedaços. O resultado foi que a grande maioria teve que engolir o fruto proibido de manhã cedo mesmo, antes de entrar nos ônibus. O grupo que foi levado ao Congresso teve que passar por uma segunda revista e checagem das credenciais. Mas o acesso só foi dado uma hora da tarde. Enquanto isso, os jornalistas esperavam sentados no chão ou nas escadarias, sem direito a água, uma vez que as garrafas foram proibidas.
