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General Santos Cruz: 'Porta de entrada é aqui'

Titular do GSI diz que tem obrigação de receber todos grupos sociais

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General Carlos Alberto Santos Cruz

Um dos homens de confiança do presidente eleito, Jair Bolsonaro, o general Carlos Alberto dos Santos Cruz recebeu do amigo, de mais de 40 anos, a missão de comandar a Secretaria de Governo a partir de amanhã. Ali, cuidará do bilionário Programa de Parceria de Investimentos (PPI), da publicidade estatal e da relação com prefeitos, governadores e integrantes de sindicatos e organizações civis. “A porta de entrada é aqui. Os grupos têm de se sentir com liberdade. MST, ONGs, gays, Fiesp, OAB, índios, todos”, disse Santos Cruz em entrevista aos repórteres Denise Rothenburg e Leonardo Cavalcanti, do “Correio Braziliense”. O general disse que percebeu a força de Bolsonaro quando o discurso do ex-capitão se mostrou em sintonia com o anseio social. “Ninguém aguentava mais tanta corrupção. No Rio, o crime organizado começava no Palácio Guanabara.” Sobre o escândalo envolvendo Flávio Bolsonaro, ele afirmou: “Este assunto não é de governo, mas parlamentar. Você vê que é um assunto absolutamente particular, que tem de ser explicado por um parlamentar estadual e não é um assunto de governo federal”.

Existe o risco real em relação à posse de Bolsonaro?

Seja uma probabilidade ou não, você tem que mitigar ou eliminar. Qualquer possibilidade de risco você tem de fechar, não pode trabalhar com ela. Isso vem da própria campanha, quando Bolsonaro sofreu o atentado. Era uma situação normal de campanha, o único candidato que mobilizou a massa. Onde ele chegava, havia milhares de pessoas. Tinha essa exposição ao povo brasileiro, que não é dedicado a esse tipo de atentado. Mas aconteceu. Sobreviveu por milagre. Fica uma situação que dá uma certa tensão. Outra coisa: (no segundo turno) tinham dois candidatos mobilizando a sociedade. Às vezes, tivemos pequenos grupos radicais. Em qualquer conjunto político ou não político, há pessoas que se aproveitam da situação e podem fazer uma besteira.

Em relação ao protagonismo de militares, qual a avaliação do senhor? Há uma piada de que Bolsonaro não montou um ministério, mas um quartel.

Fiquei 48 anos no Exército e nunca fiz essa conta. Não me importo com isso. Conheço pessoas excelentes na parte civil, tanto que meu secretário executivo é civil, da CGU. E tem outros militares que estou convidando, porque é natural passar 48 anos na instituição e conhecer pessoas. Estou aqui, porque conheço Bolsonaro desde a época de tenente. O conhecimento é uma coisa normal, você chama pessoas em quem têm confiança. A história de contar o número de militares é um tipo de discriminação que não leva a nada. Vejo como uma herança, revivendo como se fosse uma coisa perigosa, colocando alguma coisa em risco. Isso não existe.

Há uma relação com 1964?

Em 1964 era outro contexto. Não tem nada a ver. Tem gente discutindo 1964, eu tinha naquela época 12 anos.

Acha que a sociedade enxerga assim essa herança negativa?

Acho que não. É mais de grupos de interesse político. A sociedade, aliás, aceita muito bem os militares. É uma das instituições com mais credibilidade. Se o sujeito fizer uma besteira, não fez uma besteira apenas para ele, mas está manchando toda a instituição. Se ele fizer uma coisa boa, beneficia toda a instituição. Temos obrigação de fazer direito.

Mas não existe um risco de essa imagem das Forças perder credibilidade caso o governo fracasse?

Uma coisa é ter envolvimento político, outra é ter envolvimento de governo, de administração. O perfil do militar não é partidário. Alguns até são vinculados a partido, até para participar de cargo eletivo. Mas eu, por exemplo, não sou filiado. O risco dessa confusão sempre existe. Tudo aquilo que você fizer de certo ou errado vai refletir na instituição toda. Agora, também, os militares não podem ficar afastados completamente da política, porque somos parte da sociedade.

Esse caso do assessor Queiroz agora, envolvendo o filho de Bolsonaro, está ainda por ser explicado. Como o senhor tem visto essa situação?

Em primeiro lugar, não interessa se o valor é baixo ou alto. Pessoa pública tem de explicar, compete a ela explicar. Outra coisa que tem de separar é o que é parlamentar e o que é assunto de governo. O Flávio Bolsonaro é parlamentar, é deputado estadual. Isso não é assunto de governo. É um assunto absolutamente particular, que tem de ser explicado por um parlamentar estadual e não é um assunto de governo.

De qualquer modo, iniciar o governo com uma situação como essa...

Dá margem à curiosidade e gera discussão, interpretação... Mas não é assunto de governo.

Possivelmente, no governo, não existe alguém tão próximo do presidente eleito como o senhor. Qual é o perfil de Bolsonaro?

O Bolsonaro é isso que vocês estão vendo. Conheço há mais ou menos 40 anos. A nossa amizade vem da equipe esportiva, fazia pentatlo militar como ele. Então, é aquela amizade que vem da época dos 25, 26 anos de idade, uma fase boa da vida. E ele continua a mesma coisa. Um sujeito voluntarioso, um cara corajoso, espontâneo. Dá as respostas na lata.

Mas o estilo voluntarioso, na política, não pode atrapalhar o relacionamento com o Congresso?

Acho que não. Fica mais fácil de conhecer. Difícil é lidar com uma pessoa que você não sabe o que ela está pensando. Ele é um sujeito simples.

No governo, o senhor acredita que ele deva manter esse estilo?

Ele nunca mudou. Mas também, com quase 30 anos de Congresso, sabe avaliar as coisas. Ele é intuitivo.

Em que momento o senhor percebeu que ele ganharia a eleição?

Quando começou a campanha e a plataforma de Bolsonaro era a mesma da população, pedindo segurança e cansada de corrupção. Estamos há quantos anos vendo escândalos na primeira página todos os dias? Outra coisa: num país onde o salário mínimo é de R$ 954, você ter escândalo todo dia com uma perda de noção de valores, passando de mil para milhões e chegando a bilhão? Isso cansou.

Por que o Brasil chegou a esse ponto?

Governantes irresponsáveis e criminosos deram mau exemplo e, dali para baixo, o crime veio se espalhando. No Rio, onde estava o crime organizado? Todo mundo pensa no cara da boca da favela com o fuzil na mão. O crime organizado no Rio começava no Palácio Guanabara, passava pelo Tribunal de Contas.

O Congresso será um problema?

Valorizo muito essa turma nova que está chegando. Vai ser uma boa composição: a turma experiente e a turma nova.

Quais as metas a partir de agora?

A família, mais uma vez, terá que entender que eu vou ter que sair cedo e voltar tarde. Na ONU, por quatro anos e nove meses, vinha em casa de dois em dois meses. Na parte profissional, a primeira coisa é consolidar essa estrutura. Estamos fazendo uma revisão no organograma. Uma relação de confiança com estados e municípios. Não interessa qual é o grupo social, ele tem que se sentir com liberdade.

O MST?

Sem problema nenhum. Isso faz parte da sociedade. Você se sente como uma porta de entrada para qualquer organização, como ONGs, gays, organismos internacionais, Fiesp, OAB, índios… A porta de entrada é aqui.

Existe uma preocupação de várias minorias de não serem recebidas.

Isso é um absurdo. Quem divulga isso é completamente fora da realidade. Somos pagos para isso. É obrigação receber todo mundo, a finalidade é essa. Houve a exploração da campanha. Era a opção que tinha o outro lado. Eles tinham muitas acusações de corrupção, desmando etc. E aqui, pegaram a homofobia, não gosta de mulher etc. Então, realmente, a polarização trouxe estereótipos. Mas não tem nada a ver.