Pag. 5 - O direito à emoção
Nem todos os que são louvados, ainda em vida, conseguem ser vistos com admiração no futuro O PRESIDENTE LULA não tem contido a emoção, nestas horas finais de governo. De vez em quando é obrigado a disfarçar a umidade de seus olhos. Como se recorda, ao ser diplomado presidente eleito, as lágrimas registraram sua intensa emoção. O menino de Garanhuns, cujo sonho maior, ao chegar à adolescência, fora o de conseguir o título profissional de torneiro mecânico, chegava à mais elevada posição política e social de seu país.
A memória é a melhor companheira da consciência, porque ela nos concede o benefício de viver todas as idades, todas as circunstâncias, boas e desagradáveis, da vida. Lula tem todo o direito a percorrer as pradarias do sétimo céu. Ele pagou antecipadamente as suas vitórias, nas conhecidas agruras da infância e da juventude. Essas dificuldades não o fizeram santo, mas nele confirmaram o homem. Ele é uma pessoa comum, de seu país e de seu tempo, sujeita aos limites e abismos da condição humana, com o exercício de certas virtudes e o cometimento de alguns pecados, no poder e fora dele. Os santos não podem governar os homens; se chegam a fazê-lo, costumam ser déspotas e sanguinários.
Ao examinar seu passado, Lula pode sentir que também foi um privilegiado. As circunstâncias, que o fizeram metalúrgico, concederam-lhe a oportunidade de conhecer pessoas ainda menos favorecidas pelo nascimento e pelas condições familiares. O sindicato lhe permitiu conhecer a solidariedade. O resto veio pelo acréscimo de sua invulgar intuição política e da quadra histórica, na qual o regime militar começava a sofrer os primeiros sinais de exaustão, e os cidadãos, ao retomar a esperança, ansiavam por lideranças novas.
Lula não foi o único a ocupar o espaço da promessa. Conseguiu, no entanto, conduzir ponderável parcela dos assalariados, a dos trabalhadores com maior consciência política, que constituem sempre a vanguarda dos movimentos de classe: os metalúrgicos, os gráficos, os professores e os bancários. A essa massa se somaram intelectuais e os setores avançados da Igreja. Lula, por mais os ouvisse, era ainda o menino de Garanhuns, provavelmente desconfiado dos aplausos.
As inúmeras e repetidas homenagens que vem receben do estão sendo criticadas por certos observadores dos meios políticos e de setores da imprensa. Há sempre a sombra do culto da personalidade, esse fantasma que o estado democrático repudia.
É, sem embargo dessa cautela, da tradição política, no Brasil e alhures, a manifestação de reconhecimento a alguns homens públicos.
Nem todos os que são louvados, ainda em vida, conseguem ser vistos com a mesma admiração pela posteridade, mas o consolo de uns e o desalento de outros é que nenhum homem pode prever exatamente o juízo que dele terá o futuro. Não adianta o expediente de mandar erigir suas próprias estátuas. Não só elas podem ser destruídas pelo ódio inexplicável pelos mortos, como até mesmo os cadáveres costumam ser profanados, como ocorreu a Cromwell, cujo corpo, exumado, foi levado à forca pela vingança dos monarquistas.
Deixemos a Lula – e à maioria dos brasileiros – as alegrias que sua invulgar trajetória humana lhe concede.
Como ocorre a outros que se dedicaram realmente ao povo, os pobres não o esquecerão. E não o esquecerão os vitoriosos de amanhã, vindos de seu mesmo e ácido solo humano, que chegam agora à Universidade, graças ao Prouni, e que, com igual determinação, passam a freqüentar as escolas técnicas que ele criou.
Graças ao Senai, Lula encontrou a trilha que soube percorrer. Ao lembrar-se do que conseguiu, pode passear seu legítimo orgulho pelo mundo ou pelas trilhas do agreste, sem deixar de ser o m e s m o.
O menino de Garanhuns, por mais os êxitos o hajam afastado, continua em algum canto de sua alma, saltando de satisfação, mas, provavelmente, ainda desconfiado das lisonjas.
Por Mauro Santayana: maurosantayana@jb.com.br
