Um bebê depresente
Cada vez mais mulheres brasileiras doam gametas para que outras possam realizar o sonho de serem mães
Ter um filho depois dos 50 já não é mais tarefa impossível. Opção para quem já tentou engravidar de todas as formas de engravidar, a doação de óvulos é uma técnica que hoje representa cerca de 30% dos tratamentos nas clínicas de reprodução assistida e tem como público alvo, principalmente, quem a idade não permite mais a gravidez. Mas até que ponto vão os benefícios da técnica?
Reconhecida por uma resolução do Conselho Federal de Medicina, a doação de óvulos surge como opção para mulheres já entraram na menopausa ou têm problemas crônicos no ovário. Especialista em reprodução assistida, o médico João Ricardo Auler conta que a doação não pode ter fins lucrativos e deve ser feita no anonimato.
– Essa é uma forma de evitar que a doadora dos óvulos venha requerer algum direito sobre a criança – conta. – Havendo o anonimato na doação, é garantida a integridade dos direitos maternos da receptora.
Mas, afinal, por que doar os óvulos? O médico conta que as doadoras normalmente são mulheres que procuram a clínica para fazer uma fertilização in vitro e não podem custear os remédios.
– Nesse caso, quem paga os remédios é quem vai receber os óvulos, assim a doadora pode fazer o seu tratamento e doa metade dos gametas à receptora – esclarece João Ricardo. – A responsabilidade de juntar duas mulheres que têm mais compatibilidades física e sanguínea fica com a clínica.
Aline Cristina Arosa, 26, é uma das doadoras beneficiadas. A escolha reduziu os custos da fertilização in vitro em mais de 50%. Hoje, com um casal de gêmeos de 10 meses, ela comemora.
– Eu coloquei três óvulos e achei que viriam trigêmeos, mas queria dois mesmo e fiquei muito feliz – conta Aline, que arcou com parte do tratamento, cerca de R$ 7 mil. – Acho natural ter doado óvulos, era a única forma de eu conseguir o tratamento.
Psicóloga especialista em saúde coletiva, Gisela Cardoso alerta que a decisão de doar deve ser bem pensada.
– A partir do momento em que ela decidiu doar seus óvulos, tem que ter o nível de desprendimento para não pensar que tem um filho no mundo que não conhece – observa. – Legalmente e simbolicamente, esse filho não é dela. Não é qualquer pessoa que teria condições psicológicas para lidar com isso.
O médico João Auler sustenta que a técnica é uma boa saída tanto para mulheres que entram precocemente na menopausa quanto para quem decide ter filho mais tarde.
– Muitas mulheres decidem engravidar depois de ter uma vida profissional estabilizada – conta. – Elas mudaram sua postura social, mas a natureza não mudou.
É o caso de Ana Maria Oliveira, que resolveu tentar a doação compartilhada e recebeu um óvulo fertilizado de uma doadora. Ana Maria, que aos 18 anos perdeu um filho afogado, ficou surpresa quando descobriu que, aos 47, estava grávida de gêmeos.
– Minha gravidez foi 100% segura, tive os gêmeos com oito meses, trabalhei até os sete, fui uma gestante completamente normal – lembra. – Imagina só, perder um filho e depois de 26 anos conseguir engravidar de novo, de gêmeos? Hoje eu sou a mulher mais feliz do mundo.
O sucesso no caso de Ana Maria pode ser uma exceção. Para Paulo Gallo, professor de ginecologia e obstetrícia do Hospital Universitário Pedro Ernesto, é preciso ficar atento à gravidez de risco, que acontece principalmente depois dos 40:
– É uma idade em que a mulher está mais suscetível a doenças cardiovasculares associadas, diabetes, há maior incidência de aborto, má gestação fetal e até de câncer.
Segundo Renato Ferrari, professor do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da UFRJ, como a carga genética do bebê é uma parte do pai e outra da mãe que doou o óvulo, os riscos de a criança ter um problema genético não são tão grandes como naquelas que engravidam do seu próprio óvulo. Mesmo assim, a gravidez tardia deve ser acompanhada com cuidado.
– Pode ocorrer com mais frequência o diabetes, a pressão alta e os abortamentos – explica. – A mãe diabética pode gerar um bebê acima do peso, a hipertensão pode levar a um descolamento da placenta. No início dos 40 anos, os riscos são menores, mas aumentam quando se aproxima dos 50.
Ferrari acrescenta que os riscos das receptoras desenvolverem câncer pelo o uso de hormônios necessários, é muito pequeno.
Quem não tem um parceiro e mesmo assim deseja engravidar pode recorrer aos bancos de sêmen. Segundo dados do banco de sêmen do Centro de Fertilização Assistida Fertility, nos últimos cinco anos, houve um aumento de 40% na busca por esperma de doadores anônimos entre as mulheres.
A doação dos gametas deve ser feita no anonimato. Mesmo assim, a mulher pode escolher o futuro filho pelas características genéticas do doador, como o tipo sanguíneo, cor de pele, cabelos, altura e peso, e também pela personalidade, como a religião, ocupação e até os hobbies.
Quem se interessar deve procurar na própria clínica, que faz o pedido aos bancos de sêmen. No Brasil, existem apenas dois, ambos em São Paulo.
