Filantropia duvidosa
Construção de escola por empresa de cruzeiros gera críticas no Haiti, assim como a alegria dos turistas
Desde 1986, a Royal Caribbean Cruises, corporação de cruzeiros sediada em Miami, administra um resort no Haiti. A empresa arrenda do governo 105 hectares de frente para o mar, a 145 quilômetros da capital, Porto Príncipe. Várias vezes por semana, até sete mil pessoas chegam para passar o dia, a bordo de transatlânticos, criando um contraste com a pobreza que reina além dos portões.
Mas depois do terremoto de janeiro de 2010, que devastou a capital e matou 300 mil pessoas, a linha de cruzeiros recebeu críticas pesadas por voltar a aportar seus navios, trazendo veranistas brincalhões pouco tempo depois do tremor que deixou um milhão de desabrigados.
Foi então que, no final do ano passado, a empresa abriu o complexo escolar Nova Escola Royal Caribbean. Segundo representantes da Royal Caribbean, a decisão já estava em consideração antes do desastre e da pressão severa que recebeu em decorrência dele.
– Os problemas do Haiti são enormes, e é difícil fazer um progresso significativo. Quisemos começar a ajuda através da educação. Nossa ajuda foi modesta, pois somos uma empresa, não uma organização de caridade – declarou Richard Fain, presidente da companhia.
Depois do terremoto, a empresa doou cerca de 2 milhões de dólares e ajudou a importar suprimentos emergenciais.
– Não estamos fazendo isto por uma motivação completamente altruísta, mas sentimos que temos a responsabilidade de fazer a diferença aqui – completou Fain.
O elogio dos moradores é pontuado com dúvidas. Localizada num morro, a escola fica longe das cidades que atende e, como não fornece refeições, os críticos se perguntam por que a empresa não fez mais. O Programa Alimentar Mundial doou uma certa quantidade de comida, mas parou de fornecer almoço há alguns meses. Uma cozinha está sendo planejada, mas, por enquanto, somente alguns pais conseguem dar o almoço aos filhos.
Segundo os professores, grande parte dos 200 alunos não come nada durante a manhã, até voltarem para casa depois da aula.
– Eles prometeram uma escola diferente, onde as crianças seriam alimentadas e teriam acesso a atividades esportivas, internet e aprenderiam inglês para falar com estrangeiros. Esses serviços ainda não foram providenciados – criticou Paul Herns, professor da quinta série, que expressou um sentimento comum: gratidão misturada à impressão de que a empresa, cujo faturamento de 2010 foi de 6,8 bilhões de dólares, poderia ter feito mais.
John Weiss, vice-presidente da companhia, afirma que as refeições não foram prometidas e defende que “a escola em si é formidável, um refúgio limpo em relação às várias cidades vizinhas, onde as ruas estão atulhadas com lixo”.
As turmas vão do jardim de infância à quinta série do Ensino Médio, e os alunos são escolhidos por sorteio. Cerca de 20% são filhos dos funcionários locais da empresa. Segundo Weiss, foram investidos quase 550 mil dólares para construir e equipar a escola, e o custo anual para administrá-la gira em torno de 200 mil dólares.
Certamente, há uma diferença brutal na comparação com escolas locais. Contudo, como se decidiu construir a escola num morro controlado pela empresa, ela também é afastada. Muitos alunos vão estudar espremidos na traseira de picapes ou “tap-taps”, veículos velhos que funcionam como táxis locais, que a empresa diz subsidiar, embora os pais afirmem pagar com dinheiro do próprio bolso.
Alguns estudantes como Rodman Decius, 13 anos, dizem que nem sempre conseguem pagar o transporte subsidiado. Depois de ficar 10 horas sem comer, ele caminha uma hora para voltar para casa, passando por dentro da mata, em alguns momentos escalando um penhasco íngreme. Na jornada, ele passa por várias escolas.
Moradores como o taxista Eddy Hippolyte, dizem que, para algumas pessoas, em vez de construir uma vitrine, a empresa deveria ter reformado as escolas existentes. Weiss se irrita com o que considera uma atitude de “dar uma mão e querem um braço” que sente ter sido criada pelo trabalho de filantropia da empresa.
