Terrence Malick, o enigma
Atores e produtores falam sobre o trabalho com o recluso diretor, cujo quinto filme, ‘A árvore da vida’, estreou ontem no Festival de Cannes
Quando o então jovem Terrence Malick entregou seu trabalho de final de curso ao American Film Institute, estipulou que ninguém poderia copiá-lo ou mesmo consultá-lo fora da instituição, em Los Angeles. E, assim, o curta-metragem Lanton mills (1969), sobre dois cowboys do século 19 que descem de seus cavalos para assaltar um banco da Califórnia moderna, tornou-se a primeira peça do quebra-cabeças da mítica criada em torno do diretor bissexto, que fez apenas cinco filmes em quatro décadas – duas delas separam o segundo, Cinzas do paraíso (1978), do terceiro, Além da linha vermelha (1998).
O quinto, chamado A árvore da vida, foi recebido com ansiedade ontem, na competição do 64ª Festival de Cannes, por um circo midiático que insiste em alimentar o enigma de um realizador reconhecidamente recluso, que estipula em contrato que não participará da promoção de seus filmes. Apesar da reputação e do longo histórico de atitudes de desprezo para com os mundanos rituais de publicidade, jornalistas do mundo inteiro se apinharam na sala de coletivas de imprensa do Palácio dos Festivais na vã esperança de que o cineasta americano de 67 anos quebrasse o jejum de esquisitices e desse o ar de sua graça.
Foram recebidos, como previamente anunciado, por quatro produtores do filme e três de seus atores – o mais proeminente deles, o galã Brad Pitt, acumula o papel de produtor associado. Mesmo ausente, Malick passou a ser o tema dominante do encontro. Diante da impossibilidade de conseguir a confirmação de seu principal interlocutor, a produtora Sarah Green, por trás do longa anterior (O novo mundo, de 1995) e do próximo de Malick (ainda sem título, com previsão de estreia para 2012), mais uma vez reforçou a lenda:
– Ele é um sujeito muito tímido – defendeu Sarah.
O produtor Grant Hill acrescentou:
– Ele prefere que os filmes falem por si mesmos, não gosta de ficar explicando detalhes sobre eles ou justificando suas escolhas como diretor.
A curiosidade em torno de Malick é até compreensível. Avesso à imprensa, o diretor deu sua última entrevista ainda nos anos 70. O que se sabe sobre seus hábitos, comportamento e métodos de trabalho vem de pistas fornecidas por aqueles que trabalharam com ele. Como as do ator Nick Nolte, que participou de Além da linha vermelha, anos trás:
– Terry me entrega algumas páginas de roteiro que ele escreveu, vejo que é como um poema maravilhoso e digo: “Isso está ótimo, Terry, mas são seis páginas para decorar”. E ele responde: “Sim, pegue essas seis páginas e transforme em algo que você possa dizer”. Então, faço o corte que ele sugeriu, mostro o resultado e ele diz que ainda está muito longo, e nós acabamos ficando com apenas uma ou duas linhas de um texto que tinha seis páginas.
Aparentemente, Malick parece não ter mudado muito seu sistema de trabalho com os atores nas últimas década. Segundo testemunhos do elenco presente em Cannes, as filmagens de A árvore da vida envolveram um tipo de improvisação que busca a familiaridade com o set e entre os atores. O filme, cujo lançamento no Brasil está marcado para o dia 24 de junho, é uma espécie de ensaio poético e filosófico sobre as forças que regem a vida a partir do impacto da morte de um dos três filhos de um casal, formado por Pitt e Jessica Chastain, nos anos 50, com o mais velho deles, já adulto, nos dias de hoje, interpretado por Sean Penn.
– Tudo começou com Terry alugando um quarteirão inteiro de um bairro de uma cidade do Texas, vestindo o elenco com roupas dos anos 50 e nos deixando caminhar pelas ruas da área como se estivéssemos naquela época – lembrou o ator de 47 anos. – Ele costumava nos dar um monte de páginas do roteiro para desenvolvermos algo a partir delas, sem nos prendemos a elas. O Terry é um diretor mais interessado no que pode acontecer espontaneamente durante um dia de filmagem do que no que está determinado no texto.
– Para Malick, o mais importante é poder capturar um acidente dentro do universo estabelecido no roteiro – elaborou Jessica Chastain. – Ele fica horas observando seus atores no set, atento a qualquer coisa que o inspire no ambiente, vemos fora do previsto no texto. Malick incorpora tudo ao filme.
Assim como nos filmes anteriores do realizador, os personagens de A árvore da vida revelam-se mais como poetas ou filósofos do que personagens de um drama familiar qualquer. “A não ser que você ame, sua vida passará rápida como um raio”, pontifica a personagem de Jessica, entre belas imagens que remetem à origem da vida e dos tempos e passagens bíblicas que relacionam a natureza e a presença de Deus. O tom evangelizador do filme levantou suspeitas de que Malick estaria confessando suas inclinações religiosas.
– Acho que Terry está mais inclinado ao espiritual do que propriamente a algum compartimento do cristianismo – observou Pitt.
– É uma história que alude a temas de religiões e filosofias de todas as ordens, o que é uma marca dos filmes dele – analisou Sarah.
Mas é o ator Martin Sheen, coprotagonista (com Sissy Spacek) de Terra de ninguém (1973), o primeiro filme de Malick, que guarda o melhor testemunho da dimensão espiritual do diretor. Foi Malick quem convenceu Sheen, então com 40 anos, a se converter novamente ao catolicismo, religião que havia abandonado aos 21 anos.
– Era 1981, eu estava em Paris rodando um filme chamado Enigma, e um dia o encontrei na rua. Não via Malick há anos. Ele tinha parado de fazer filmes porque estava se sentindo corrompido por Hollywood, deixado Los Angeles e tinha se mudado para a Europa, onde estava dando aulas – recordou Sheen ao JB, durante o Festival de Marrakech de 2008. – Estava num momento muito ruim da minha vida, e foi ele quem me encorajou a voltar à religião, clareou minha cabeça. Explicou que as sementes do futuro estavam plantadas no meu passado e que, para descobrir o que eu era, seria necessário voltar atrás.
