Atualidade: Jornalismo e política
Ahomenagem que o Senado Federal prestou ontem ao Jornal do Brasil, pelos seus 120 anos deexistência, serviu ao exame das relações entre a imprensa, a política e o poder. Todos os oradores – senadores Wilson Santiago, Marcelo Crivella, Pedro Simon, Álvaro Dias, Randolfe Rodrigues, Lindbergh Farias, Christovam Buarque e Walter Pinheiro, e a presidente da empresa, Ângela Moreira – examinaram a trajetória política do Jornal do Brasil, na defesa do país, da democracia e da República.
Foram lembrados os grandes nomes que nele ajudaram a construir a nação, como Ruy Barbosa, Rodolfo Dantas, Joaquim Nabuco, Barbosa Lima Sobrinho, Alceu do Amoroso Lima, Carlos Castello Branco e muitos outros.
Há momentos em que o poder é a antítese da política e, em nosso país, o Jornal do Brasil viveu alguns deles, de forma nítida. Durante o governo de Floriano e o governo militar instaurado em 1964, entre outros, a ação política se contrapôs ao poder de fato e o jornal serviu à oposição.
A política deve ser a prática da ética, e seu fundamento é a legitimidade, ou seja, a manifesta vontade da maioria dos cidadãos. Por mais eficiente, mais brilhante e mais correto seja um governo, se lhe faltar o consentimento ativo dos governados, será sempre uma usurpação.
Parte da imprensa desserve à democracia, quando se deixa manipular pelos interesses externos, e conduz parcelas da opinião pública a apoiar golpes liberticidas, como ocorreu em 1964.
Todos os oradores referiram-se à presença política do Jornal do Brasil na História destes 120 anos. O jornal nasceu político, como políticos eram, uns mais, outros menos, todos os jornais brasileiros, e políticos continuam a ser, embora alguns relutem em reconhecer essa postura.
Queiram, ou não, o jornalismo será sempre uma atividade política. A melhor conduta ética do jornalismo é a de não omitir os fatos, tal como são aferidos.
Entramos em outra fase do jornalismo, a das comunicações eletrônicas. Como todas as revoluções, essa nos assusta. O século passado conheceu o momento mais alto do papel como veículo de comunicação, que soube resistir ao rádio e à televisão, mas a internet representa, para a esperança e para a angústia, novo desafio à idéia de mundo que herdamos dos grandes construtores do Ocidente.
O novo meio significa o fim do privilégio dos jornalistas, que antes se faziam ouvir quase sem contestação.
Hoje todos somos jornalistas, para o prazer da leitura diante de textos primorosos e para o desconforto, diante de textos nefandos, injustos e de extremo mau gosto. Mas o jornalismo impresso também teve suas folhas cáusticas, infames, pesadas, muitas vezes obscenas.
Isso nos leva à esperança, mais do que à convicção, de que sempre haverá, nos veículos eletrônicos, espaço para a reflexão mais ponderada, para os textos redigidos com talento, e para o exercício da ética.
Voltando à ética, ela sempre dependerá da ação política, a fim de que sirva à sobrevivência e à felicidade possível dos seres humanos. Em visão laica e teleológica, ela é o indispensável fundamento da vida e está presente até mesmo em algumas espécies animais. É o contrato instintivo de solidariedade, que se confronta aos desafios da natureza e, entre os homens, aos surtos de insânia totalitária.
A história política brasileira das últimas doze décadas não teria sido a mesma, sem a presença do Jornal do Brasil e outras folhas, que sempre assumiram posições políticas claras e respeitaram o pluralismo das idéias.
Os jornais servem melhor, quanto mais temperados nos sentimentos humanos, isto é, no compromisso político dos cidadãos para com a sociedade nacional. A palavra, escrita ou não, só serve à vida, quando serve ao outro, na expressão da solidariedade e na exigência da justiça.
