Um presente para a(s) cidade(s)

O artista americano Mark Jenkins volta ao Rio para apresentar o trabalho que o consagrou: esculturas construídas com fitas adesivas, que podem ser vistas, hoje e amanhã, no Parque Lage e Casa França-Brasil

Por Rachel Almeida

 

Ele é conhecido  mundialmente por espalhar seus inusitados bonecos, feitos de fita adesiva, pela  paisagem urbana das cidades mais diversas. Pois fique sabendo que esta mania do irreverente artista americano Mark  Jenkins começou exatamente aqui, no Rio de Janeiro, em 2003. 

Em visita à cidade novamente, para participar da Mostra Nova Cultura Contemporânea com mais de uma centena  de artistas, ele fala ao Jornal do Brasil  sobre sua trajetória e seu trabalho, composto por novas peças que podem ser vistas hoje e amanhã, na Casa França-Brasil, no Centro, e no Parque Lage, no Jardim Botânico.

O artista de 40 anos  criou dois trabalhos para a a Mostra Nova Cultura Contemporânea, que, desde 21 de março, reúne representantes da pintura, música, grafismo, performance e instalações  na cidade, em times de 10 a 15 pessoas, para criações conjuntas. A ideia partiu do coletivo Rojo, fundado há dez anos, em Barcelona, por David Quiles Guilló,  diretor e curador do evento, cuja primeira edição, em 2010, passou por São Paulo e Los Angeles. Mark Jenkins está aqui desde o dia 13, na mesma cidade que lhe deu o insight inicial para seu trabalho há 8 anos.

– Foi na Rua Pompeu Loureiro (em Copacabana). Construí um homem dentro de uma lixeira e algumas figuras em túneis – lembra o artista, hoje radicado em Washington, nos Estados Unidos, que também usou a Praia de Copacabana como cenário para seu trabalho. –  Eu vim para cá com a intenção de tornar-me escritor. Acho que a cidade evocou, em mim, uma espécie de liberdade de fazer arte e colocá-la nas ruas. Não havia realizado nada parecido antes. 

Desde então, ele não parou mais. Surpreendeu os transeuntes instalando suas esculturas em posições intrigantes. Exemplo? Dê uma olhadinha nas fotos desta página: há obras  em que aparecem apenas troncos, corpos pendurados de cabeça para baixo... Já pôs até um meio corpo de ponta-cabeça numa lata de lixo. Às vezes, as imagens têm um quê de “assombrações”.

– De 2003 a 2006, nunca pedi permissão para instalar minhas obras na rua – lembra.  – Depois, passei a ser convidado para criar em outras cidades, mas nunca tive muitos problemas com policiais, embora, várias vezes, eles tenham vindo perguntar o que estava acontecendo. De uma maneira estranha, acabaram se tornando como atores no palco. 

Entre os novos trabalhos, está The swinger: uma escultura elaborada com fita adesiva preta, de um homem pendurado de cabeça para baixo, que já foi instalada num dos balanços do  Parque Lage e também numa das árvores. 

– Um dos objetivos do curador David  Guilló era surpreender os visitantes  com os trabalhos instalados em espaços inusitados – comenta a diretora da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Claudia Saldanha. – Por isso, não fizemos exatamente uma sinalização das obras, mas há monitores orientados para informar quem estiver interessado. 

O outro trabalho, instalado na Sala Especial da Casa França-Brasil e intitulado Estalagmite, compreende três figuras humanas em tamanho natural, vestidas, também construídas com fita adesiva (porém transparente), em posições diferentes.

– Eu nunca sei o que esperar da reação das pessoas – admite Jenkins, que, depois do Rio, tem trabalhos agendados em Berlim, Suécia, Los Angeles e Ásia Central – Às vezes, é uma criança pequena dando um abraço numa escultura; às vezes tem gente que ateia fogo nelas. Um mergulhador, uma vez,  “salvou” um dos trabalhos jogados em um rio. E até um esquadrão antibomba já abordou um ‘casal’ que eu criei em Washington D.C. Um dos objetivos da minha arte urbana é interagir com a cidade de uma forma diferente da turística, que só absorve e não dá nada em troca. 

David Guilló empolgou-se com o resultado e planeja realizar  outras edições. 

– Tínhamos o plano, inclusive, de deixar algo permanente no Parque Lage, mas o processo não seria nada simples – conta.

Para Mark Jenkins, talvez a permanência de suas obras aqui não seria tão interessante.

–  Eu não gosto de criar trabalhos permanentes. Gosto que minhas obras sejam sempre frescas.