Peripécias na hora da Ave Maria

A montagem de ‘O pacto das três meninas’ retoma o costume das matinês com apresentações às 18h

Por Daniel Schenker

Resgatar o horário das matinês teatrais: esta é uma das propostas de O pacto das 3 meninas, montagem que  ficará em cartaz no palco do Teatro Clara Nunes (Shopping da Gávea), de quinta a sábado,   no horário das 18h. As razões são claras: uma estratégia para atrair o público da terceira idade; e uma saída para a quantidade de espetáculos que vêm sendo apresentados num mesmo espaço. 

– Encenaremos na hora da Ave Maria – brinca o sempre descontraído diretor Ernesto Piccolo. – Há muitos anos, participei de uma adaptação de Capitães de areia. Fazíamos às 17h, no Shopping da Gávea. Foi um sucesso.

Piccolo refere-se a uma bem-sucedida experiência de teatro juvenil formada por um grupo normalmente reduzido de produções. Mas o horário do final da tarde/início da noite foi testado outras vezes ao longo do tempo. Um exemplo: a montagem de Afinal, uma mulher de negócios para o incômodo texto de R.W. Fassbinder, que, em 1979, foi encenada, em determinados dias, às 17h, com elenco liderado por Renata Sorrah.

Atualmente, a faixa diurna continua sendo aproveitada. 

– No Teatro do Leblon, volta e meia fazemos matinês às 17h, mas, geralmente, só num dia na semana,  às quintas – afirma Ecila Mutzenbecher, à frente dos teatros do Leblon (salas Fernanda Montenegro, Marília Pêra e Tônia Carrero) e  das duas salas do Fashion Mall. – Esse horário permite que muitas pessoas (principalmente de terceira idade) mais amedrontadas de sair de casa à noite frequentem o teatro. Não sei se um espetáculo só nesse horário vespertino iria funcionar. Não podemos nos esquecer que é a faixa dos espetáculos infantis.

A produtora Maria Siman também é favorável ao resgate do antigo hábito das matinês.

– Seria muito bom para a classe e para o público – opina. – Nós, produtores, temos que abrir novas frentes no Rio, dado o número reduzidíssimo de casas de espetáculos na cidade. Hoje não fechamos uma pauta num teatro da Zona Sul. Alugamos uma “vaga”, muitas vezes com menos de 30 minutos para as montagens e desmontagens entre  apresentações. A abertura de horários alternativos se dá por este motivo.

Há ainda espetáculos que investem na hora do almoço, tendência que vigorou há certo tempo no CCBB.

– Apresentamos os musicais É com esse que eu vou e Sassaricando, respectivamente, às quintas e sextas, às 12h30  – conta a produtora Amanda Menezes. – Não serve tanto como alternativa para a hora do almoço porque são longos. Mas atrai um público que quer voltar cedo para casa. Também deu certo fazer Sassaricando às 17h. 

Agora, no final da tarde, o público poderá se divertir com Branca, Marta e Vera, personagens carismáticas de O pacto das 3 meninas. 

Elas seguem à risca os ensinamentos da Maude de Ensina-me a viver – que já provou ao mundo que irreverência é uma qualidade que não tem idade. Na peça de Lulu Silva Telles e Rosane Svartman, a vida aos 70 anos está apenas começando. Amigas da época em que estudavam no colégio, as protagonistas firmaram um pacto: aos 70 fariam tudo o que abdicaram na vida por causa de obrigações e pressões sociais. No elenco, Camilla Amado, Rosamaria Murtinho, Marly Bueno e Lafayette Galvão.  

– Tenho admiração pelo Piccolo e já havia trabalhado com Rosamaria em Exposição 1935, de Maria Inês Souto de Almeida, e com Lafayette em As desgraças de uma criança, de Martins Pena – lembra Camilla. 

O espetáculo surgiu da parceria entre Rosane e Piccolo. Parceiro da autora no teatro – assinou a montagem de Mais uma vez amor – e no cinema – atuou no filme Como ser solteiro (1997) –, Piccolo encomendou o texto a partir de um desejo de trabalhar com divas do teatro brasileiro. 

– Conhecia Camilla Amado porque a mãe dela era amiga da minha tia – conta o diretor, que trabalha pela primeira vez com Marly.  – Já Rosamaria interpretou minha mãe em quatro novelas: Jogo da vida, Eu prometo, Kananga do Japão e Pantanal. E contracenei com Lafayette Galvão no projeto do teatro de terror. 

Em O pacto das 3 meninas, Piccolo preserva a despretensão, característica nos demais espetáculos que assina, como Divã, A história de nós 2, Doidas e santas e Os difamantes.

– Procuro quebrar a quarta parede e brincar com a plateia – assume. – Também gosto de priorizar textos brasileiros e contemporâneos.

Uma exceção é Seis aulas de dança em seis semanas, do americano Richard Alfieri, que Ernesto Piccolo estreia hoje, no Teatro Renaissance, em São Paulo, com Suely Franco e Tuca Andrada no elenco. Eles interpretam Lily, de 72 anos, apaixonada por dança, e o professor Michael, de 45. 

Piccolo, sempre frenético, também tem planos de  dirigir uma peça de Mario Bortolotto, com estreia programada para julho, no Rio, mês em que também retomará Os difamantes, em São Paulo. Tem mais: ele  segue firme e forte com a Ong Palco Social, no Teatro Glauce Rocha, engajado na condução de um espetáculo infantil, a partir de texto de Rogério Blat.

–  Dou oficinas para crianças, entre 4 e 12 anos, e adultos, de 13 em diante – explica. – Os alunos da oficina para adultos interessados em dirigir se tornam meus assistentes e passam a ajudar no trabalho com as crianças. 

Para completar, Piccolo vem trabalhando como assistente de Eduardo Coutinho desde Jogo de cena (2007).

– Em seu novo filme, Coutinho selecionou pessoas que contam histórias pessoais marcadas por alguma música – revela Piccolo, que, para dar conta de tantos projetos, dividiu sua agenda em três turnos: das 10h às 14h, das 15h às 20h e das 21h à meia-noite.