Heloisa Tolipan
Ao mestre Pixinguinha, com carinho
Não se sabia muito bem o porquê, mas, na noite de anteontem , nosso coração batia feliz ao passar em frente ao Centro Cultural da Justiça Federal e ver as três moças Daniela Spielmann, Sheila Zagury e Neti Szpilman, do grupo Mulheres em Pixinguinha, fazerem nossos olhos sorrirem ao interpretarem as canções do compositor em plena semana em que completaria 114 anos. “Quando o Pixinguinha fez 100 anos, resolvemos fazer um show em sua homenagem. A partir daí, continuamos com o projeto, uma gravadora se interessou em bancar, fomos o sofisticando, viajando pelo Brasil e, sem perceber, lá se foram 14 anos. Agora, temos planos de fazer um DVD sobre esse espetáculo, com depoimentos relevantes, como de Sérgio Cabral”, conta Neti, vocalista e idealizadora do projeto. Mas há uma diferença em relação ao que se vê normalmente em homenagens ao poeta de Carinhoso: um toque feminino, vozes em coro, móveis no lugar. Como? Móveis no lugar? “Normalmente, em uma roda de choro comum, uns sentam ao lado dos outros. Mas, nós quisemos fazer uma coisa teatral em nosso espetáculo, com um cenário como se voltássemos à casa dele, como você pôde ver. Esses detalhes estão no arranjo também. Em algumas músicas, dá para sentir que há um bar escondido. Tudo feito com cuidado”. Deu super certo, Neti. Adoramos!
O lado brilhante de Tonho
Você há de concordar que todo casamento, depois de um certo tempo, precisa repensar suas estruturas, ou vai negar? Com a relação quase matrimonial de 18 anos da banda Ultramen não foi diferente. Para tentar dar uma renovada nos ares da relação, apenas profissional (é claro) cada um foi para o seu lado com sua música, e foi assim que o vocalista gaúcho Tonho Crocco conseguiu alcançar o lado brilhante da lua. Calma, gente, é só o nome de seu novo projeto solo, que reúne cinco faixas gravadas em Londres e mais cinco aqui no Brasil. E nós fomos correndo ao Oi Futuro, em Ipanema, na noite de anteontem, conferir como está esta nova empreitada de Tonho, recém chegado ao Rio e também bater um papinho com o cantor...
Conte um pouco sobre esse novo projeto...
Este é o meu primeiro disco solo desde que a Ultramen parou. Cinco das músicas que estão no disco vieram do período em que estive em Nova York e gravei um EP. Depois, quando cheguei no Brasil, gravei mais cinco e completei O lado brilhante da lua, que saiu em janeiro de 2009. E, na quinta(hoje), aqui no Rio, ainda terá outra apresentação, no Teatro Odisséia, na Lapa.
Aliás, como tem sido a experiência da carreira solo?
Parece que é começar de novo, mas, ao mesmo tempo, com toda aquela experiência da Ultramen. No momento em que se deixa de ser um coletivo para ser solo, 99% do material desse projeto vira totalmente seu, o que não acontece com uma banda, quando se tem que dividir as composições e as ideias. E tenho sido muito bem recebido.
Por que a Ultramen não está mais junta?
Durante 18 anos ficamos unidos, sem mudar a formação. Então, meio que foi um relacionamento que começou a desatar e, para não virarmos inimigos, resolvemos parar a banda. Mas todo mundo continua tocando e fazendo música. Estamos nos dando férias uns dos outros.
Qual a diferença entre tocar no Brasil e rodar pelo resto do mundo?
Por mais que tenha cantado em lugares como França, Canadá e Estados Unidos, nunca fugi do Brasil. Até porque, nesses lugares, quando há um artista brasileiro, 50% da casa é preenchida pelos próprios brasileiros e a outra metade é gringa. E o meu trabalho solo segue bem essa linha, é uma coisa mais MPB, com influências do Tim Maia, Jorge Ben Jor e ainda trago algumas coisas de Lupicínio Rodrigues. Lá fora, as pessoas gostam disso. É como se a música fosse um laço entre quem está fora de seu país e sua casa. Uma verdadeira ponte com sua raiz. E eu fui exatamente ao encontro disso.
Enchanté, monsieur Cardin
Se um senhorzinho de 88 anos, que você não conhece, entrasse, em trajes muito bem cortados, ao final de um desfile de alta-costura, o que você pensaria? Nem pense em tratá-lo mal ou perguntar ‘quem é esse’ com desdém — até porque, sua simpatia e fofura já teriam conquistado você. Todos, certamente, conhecem o nome dele, seja de livros sobre a criação prêt-à-porter, de perfumes ou roupas de cama. “É impossível não fazer licenciamentos, não dá para viver só de alta-costura. Fui para o prêt-à-porter por causa disso. Não há nenhuma vulgaridade em vestir quem trabalha. A alta-costura é muito cara, porque o processo de fazer a roupa tem custo muito alto. Com o prêt-à-porter, tive oportunidade de vender em lojas de departamento no mundo inteiro, na Inglaterra, Itália, Alemanha, Japão… Eu queria deixar uma marca, não um arranhão. Meu nome não está só em roupas, está em chocolates, água mineral, hotéis, sardinhas… Já questionaram essa minha decisão, mas a verdade é que eu sou do tempo da Segunda Guerra Mundial e, na guerra, uma lata de sardinha vale muito mais do que um vidro de perfume”, disse Pierre Cardin, na coletiva de imprensa que abriu a sua semana de trabalho aqui no Brasil. Anteontem, ele subiu até o nono andar do Shopping Iguatemi, em São Paulo, para apresentar o desfile que falamos lá no começo, com 160 peças masculinas e femininas que formaram uma retrospectiva da extensa carreira do estilista. Na trajetória de quase 60 anos no mercado da moda, Pierre já passou pelo futurismo dos anos 60, pela silhueta ‘sino’, pela arquitetura, pela produção de diversas peças de teatro, pelo figurino de outras grandes produções teatrais, pela dança e até pela Cruz Vermelha. “Já fui ator e dançarino, estudei arquitetura, sou diretor de teatro há 45 anos, sou embaixador da Unesco e já fiz parte da Cruz Vermelha. (...) Sou também jornalista, já editei revistas, além disso sou membro da Academia de Belas Artes. Não estou me vendendo, apenas explicando quem eu sou”. Entendemos perfeitamente e não achamos nada pretensioso. Nós e todos os que o viram de perto e não conseguiram segurar os elogios rasgados.
