Humberto Viana Guimarães: Energia elétrica: suprimento em risco?
De acordo com o Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE) 2019, elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e aprovado pelo Ministério de Minas e Energia (MME) através da Portaria nº 937, “entre 2010 e 2019 a taxa média de crescimento do consumo é de 5% ao ano” (pág. 14), sendo que “o crescimento médio anual da carga de energia do SIN, no horizonte decenal, é de cerca de 3.300 MWmed, representando uma taxa média de expansão de 5,1% a.a” (pág. 23), ou seja, 275 MWmed/mês. Multiplicando 275 MW/mês por 16 meses, teremos 4.400 MW. O que isto representa? Se não quisermos ter problemas com suprimento de energia elétrica, teremos que ter o equivalente à potência média de duas UHEs do porte da Santo Antônio, 2.140 MW (instalada de 3.150 MW) a cada 16 meses. O desafio é enorme.
Para se ter uma visão geral do setor de geração elétrica, analisemos os números oficiais da Annel (aneel.gov.br). Em 24/05/2006, tínhamos uma potência fiscalizada de 94.202,51 MW e quase cinco anos depois (24/03/11), 113.986,52 MW, ou seja, um acréscimo de 21%, o que dá uma média anual de 4,20% (nota: pela definição da Aneel, “a potência fiscalizada é igual à considerada a partir da operação comercial da primeira unidade geradora”). O crescimento médio do PIB nos últimos oito anos foi de 4,01%, o que demonstra claramente que só não estamos tendo racionamento de energia elétrica – por enquanto, só apagões esporádicos –, devido ao baixo crescimento da economia.
Atualmente, estão em construção 124 empreendimentos energéticos que somam 14.910,57 MW, sendo 12 UHEs com 8.863,50 MW de UHEs (59,44%) e 54 PCHs (694,35 MW, 4,66%); os demais 58 (35,90%) estão distribuídos entre eólica, solar e térmicas (convencional e nuclear). Importante ressaltar que, do total referente às UHEs, 6.660 MW (75,14%) são referentes a Santo Antônio, com 3.150 MW de potência instalada (2.140 MWmed, eficiência = 67,94%), e Jirau com 3.450 MW (2.000 MWmed, eficiência = 57,97%), que são as maiores UHEs em execução e fundamentais para a segurança energética do país.
O início previsto de geração de Jirau é janeiro de 2013, mas, com a aceleração dos trabalhos, havia a possibilidade de essa data ser antecipada para março de 2012, o que daria junto com a Santo Antônio – dezembro/2011 –, maior tranquilidade ao mercado consumidor. No entanto, a obra (Jirau) foi paralisada a partir de 15/03/11 devido aos tumultos ocorridos e que provocaram a destruição quase total do canteiro da obra (por precaução, Santo Antônio também paralisou, temporariamente, as obras).
Não obstante o empenho dos consórcios construtores das duas UHEs, mesmo que as obras adiantem o cronograma de geração, não há como transmitir a energia, visto que a linha de transmissão (LT) entre Porto Velho (RO) e Araraquara (SP) – 2.369 quilômetros em corrente contínua, a mais extensa do mundo – com prazo de execução de 18 meses, ainda não foi iniciada por falta de emissão da licença de instalação pelo Ibama.
Após os atos de vandalismo ocorridos em Jirau com depredações e saques, o governo federal houve por bem enviar contingentes da Força Nacional para fazer valer a segurança da população e do patrimônio. É mister que o Ministério Público e a Justiça façam uma profunda e criteriosa investigação para descobrir os reais motivos que provocaram esses tumultos. Se assim não procederem, as autoridades estarão deixando as portas abertas para que ocorram outros episódios como esse, criando assim um ambiente de absoluta insegurança para as obras em execução e outras que estão por começar.
Afinal de contas, são consórcios compostos por empresas públicas e privadas que têm um contrato a cumprir com o governo federal, estão investindo bilhões de reais, empregam mais de 40 mil trabalhadores (nas duas UHEs) e necessitam de segurança para levar adiante, num clima de paz e harmonia, esses empreendimentos sumamente importantes para o desenvolvimento do país. Que as autoridades tenham presente que sem ordem não há progresso.
E-mail: humbertoviana@terra.com.br
