Contra busca e apreensão

OAB quer que Ministério da Justiça derrube portaria que permite ações policiais em escritórios de advocacia

Por Ana Paula Siqueira, Brasília

Uma portaria editada pelo Ministério da Justiça em 2005 voltou a dar o que falar. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) quer a anulação do ato que permite que escritórios de advocacia sejam alvo de busca e apreensão em operações policiais. Para a entidade, a portaria é inconstitucional e atrapalha o trabalho dos advogados ao criar insegurança jurídica na relação entre eles e seus clientes. 

Ophir Cavalcante, presidente da OAB, argumenta que a portaria, além de inconstitucional, estimula a Polícia Federal a realizar buscas e apreensões em escritórios de advogados mesmo quando não existem indícios da participação deles nos crimes dos seus clientes. Ophir defende que a privacidade e a confiança com o cliente são prerrogativas essenciais aos advogados.

– O problema é que acaba confundindo a atividade profissional do advogado com a defesa do criminoso. Ao investigar, o Estado se vale de qualquer tipo de arma para buscar provas e ultrapassa os limites legais – acrescenta. – Não podemos condenar um advogado por ele defender o criminoso.

O jurista Ives Gandra Martins avalia que há “inconstitucionalidade manifesta” na portaria editada pelo MJ. Isso porque a medida vai contra o Estatuto do Advogado, que prevê a privacidade entre o advogado e seu cliente. Por ser o Estatuto baseado na Constituição, consequentemente torna-se inconstitucional. 

– O que pode haver é exclusivamente a autorização judicial para que, caracterizado um crime em processo, e se houver a demonstração de que o advogado é parte daquele crime, se tomem as medidas cabíveis – ressalva o jurista.

Velhas práticas

Paulo Blair, professor de direito da UnB acredita que medidas que impeçam na prática o exercício da ampla defesa, garantida a todos os cidadãos, levam inevitavelmente ao autoritarismo. 

–  Quando medidas de flexibilização das garantias constitucionais começam a ser tomadas, o caminho que tende a seguir é o do autoritarismo. É preciso aparelhar os órgãos do Estado para fazer investigações cada vez mais sofisticadas e diminuir os riscos. Mas é melhor isso que a volta da ditadura – pondera.

O Ministério da Justiça foi procurado, mas informou que por enquanto não pretende se pronunciar.