Mauro Santayana: Coisas da Política

Por Mauro Santayana

As servidões voluntárias

Uma das mais fortes  lições que podem ser retiradas do que ocorre nos países árabes é a de que homens que foram  servidores históricos dos Estados Unidos e de seus aliados europeus, repentinamente, se veem na rua da amargura. O  mais antigo é Mubarack,  “compreensivo” vizinho de Israel. Seus negócios escusos e a ausência da democracia eram de conhecimento de todos, sobretudo da diplomacia norte-americana.

É hipócrita a  surpresa diante da fortuna do governante, transferida para os bancos do exterior. Sua vassalagem  era de tal ordem que, como se conta, na visita que fez a Reagan, em fevereiro de 1982, o anfitrião dispensou o visitante de tratar de assuntos de Estado, ao dizer-lhe que disso cuidariam os assessores de ambos. Em lugar de temas tão tediosos, Reagan teria sugerido a Mubarack que falassem sobre mulheres, indagando-lhe dos atributos peculiares das egípcias – no que foi atendido.

Se o mais antigo servidor foi Mubarack, Kadafi é o mais recente. Não faz muito, em 2009,  o senador Lieberman, ao visitar a Líbia, com uma delegação do Congresso,  disse ao coronel que a Líbia era  importante aliada dos Estados Unidos na guerra contra o terrorismo, salientando que “ter inimigos em comum, por vezes, é o melhor motivo para se tornarem melhores amigos”. Em pouco tempo, o coronel líbio deixou de ser o  companheiro de caça para se tornar o cão expiatório (e não o bode tradicional), que deve ser sacrificado a pauladas.

Esse comportamento dos poderosos – o de desprezar os súditos que se tornam descartáveis – é antigo.  Os homens de caráter são sempre mais respeitados do que os débeis. Os vencedores nas guerras são muito mais generosos diante dos bravos do que dos acovardados. No contraponto a seu antecessor,  Chamberlain, e ao francês Laval, que, amedrontados diante das ameaças de Hitler, concordaram em entregar a Tchecoslováquia aos nazistas, em setembro de 1938, Churchill decidiu aceitar o desafio da guerra, com todas as suas consequências. Disse o grande condutor da Inglaterra, naqueles anos duros, que é preferível uma derrota pelas armas do que a capitulação sem luta.  Pétain e Laval repetiram o medo exposto em Munique, quando entregaram, dois anos depois, a França aos alemães, e firmaram  os termos humilhantes do armistício. Só a bravura dos maquis e a teimosia de De Gaulle e Giraud salvariam os franceses da absoluta desonra histórica.

Não se negue aos alemães a desesperada defesa de Berlim. Em razão disso, os aliados souberam respeitar os combatentes, enquanto puniam os verdadeiros criminosos de guerra em Nuremberg. Se os alemães tivessem capitulado nos primeiros meses de guerra, não teriam recebido, depois do conflito, os benefícios do Plano Marshall. Não se veja nisso nenhuma complacência com os alemães, que sabiam muito bem de sua responsabilidade em seguir um bando de baderneiros e paranoicos: registrem-se apenas os fatos históricos.

Os fiéis servidores dos Estados Unidos e da União Europeia  – em que só três países contam, a Alemanha, a Inglaterra e a França – não só no Oriente Médio petrolífero mas no mundo inteiro, que ponham as suas barbas de molho. Não serão socorridos se as labaredas do inconformismo varrerem seus países. Os donos do mundo, se não conseguirem fazer novos títeres, tentarão acertar seus negócios com os possíveis vencedores. É bem provável, no entanto, que, sendo vitoriosos, os rebeldes dos países em luta optem pela  plena assunção de sua soberania.

O que vale para os homens comuns vale para as comunidades nacionais. Morrer, todos nós morreremos um dia, mas, como recomendam os bravos, é melhor morrer de pé do que viver de joelhos. Sendo assim, que se reverencie a memória de Jean Moulin, o chefe da Resistência Francesa, de De Gaulle e de Churchill. Quanto a Pétain e Laval, entre outros, deixemo-los no limbo da História.