Heloisa Tolipan: As belas da noite
Os passos amedrontados de uma mulher caminhando, pela primeira vez, em direção ao local onde faria de seu corpo e seu desejo as peças mais caras que poderia oferecer. Ela pára na porta, observa, resiste, corre para casa, para no meio do caminho, volta. Por fim, toma coragem, entra porta adentro e se inicia uma das tramas mais intrigantes do imaginário mundial. Sabe de quem estamos falando? Não, ainda não é de Bruna Surfistinha. Trata-se de Catherine Deneuve na pele da bela personagem do surrealista Luis Buñuel, que protagonizou muitos dos sonhos masculinos, no final dos anos 60. Mas, tudo bem, não seria tão condenável a confusão, já que o pseudônimo de Raquel Pacheco vem se tornando o sinônimo natural da profissão mais antiga do mundo, diante de sua fama alcançada nos últimos tempos. Entre Bruna e Séverine, porém, uma divergência fundamental: a menina de 17 anos que transformou seus problemas em convicção não titubeou em seguir seus planos, não pensou em desistir depois do primeiro programa, não voltou para a casa dos pais e foi firme na composição da história que deu origem a seu livro O doce veneno do escorpião. O caminho natural, então, não poderia ser outro: a indústria das telonas também caiu em seus jogos de sedução e, na noite de segunda-feira, o longa Bruna Surfistinha teve sua pré-estreia carioca no Cine Odeon. E, nós, claro, saímos da redação e fomos direto para o mesmo destino, sem titubear, repensar, relutar ou pensar duas vezes.
Na espera dos nomes famosos que desfilariam pelo tapete vermelho, um rapaz ansioso nos aborda do lado de fora das grades: “A Bruna vem mesmo hoje aqui? E não adianta trazer Deborah Secco, quero a Bruna de verdade”. Mas, ué, Deborah não estaria ali para apresentar a sua Bruna?
“Não quis ter contato com a Raquel durante o processo de gravação do filme. Acho que poderia influenciar de alguma forma e quis fazer uma personagem totalmente nova e ficcional”, nos disse a atriz, que confessou ter uma única coisa em comum com Raquel: o desejo de que esta personagem mude sua vida, tal como mudou a da menina.
Eis que, em meio à correria de (muitos) fotógrafos, jornalistas e vários representantes de TVs do Brasil inteiro, um ambulante grita: “Bruna chegou, minha gente!”. Mas qual das Brunas seria, se nem Raquel nem Deborah estavam em nosso campo de visão? “Como profissão, acho que o assunto fica mais complexo, mas, por uma noite, acho que toda mulher tem o fetiche de ser uma garota de programa”, nos revelou Giulia Gam que, sem querer, fez do blefe do ambulante uma verdade absoluta. E não demorou muito para que Deborah chegasse, vestida com um longo assinado por Lethicia Bronstein Pompeu, e, por fim, desse início à história que “não se reduz a sexualidade, mas atribui outros valores, como de uma menina que busca se encontrar”, como definiu o diretor, Marcus Baldini, enquanto entrávamos na sala de projeção.
No fim das contas, entre todas as Brunas que vimos passar seja no tapete vermelho ou pelas margens da Cinelândia, ficamos com a ausência de Raquel Pacheco e sem as respostas sobre seu destino dali por diante, a faculdade de psicologia que pretende cursar, o casamento e o sonho da maternidade. Mas, sem dúvidas, depois do bom longa-metragem a que assistimos, só nos resta desejar a todos os envolvidos o mesmo rumo à eternidade de La belle de jour. Só que, claro, com o doce veneno peculiar que só Bruna Surfistinha ousou ter.
