Muito além do cidadão Marinho
Criado no começo dos anos 90, quando a Rede Globo detinha mais de 60% da audiência na televisão aberta, Além do cidadão Kane volta suas atenções para a imposição cultural da emissora através de telenovelas, seu poder na ditadura militar e a influência nas eleições de 1989, quando Fernando Collor de Mello chegou ao poder.
– Ver esse filme finalmente na televisão aberta é interessante para o Brasil, mas é necessário que a Record saiba contextualizar a obra – diz a professora de Comunicação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e documentarista, Alessandra Aldé.
– O filme é importante, mas fala sobre uma época em que o apoio da emissora aos seus candidatos era mais descarado. Não que hoje não exista, mas ele ficou mais sutil.
Co-diretora do filme Arquite tos do poder , que fala sobre a relação entre a mídia e a política no Brasil, Alessandra Aldé crê que a exibição serve para mostrar como qualquer veículo, e não apenas a Globo, tem posição política definida. – O monopólio da informação caiu muito nos últimos anos, não só o da Rede Globo, mas de todas as emissoras – avalia.
Ressalva Mesmo empolgado ao saber que o filme será finalmente exibido na TV brasileira, o produtor John Ellis teme pelo uso político da peça.
– Quando vendi os direitos para a Record, não sabia que havia essa rixa entre as emissoras – revela Ellis. – Mesmo assim, acho importante que o documentário seja exibido na TV, já que Além do cidadão Kane é famoso entre jornalistas e estudantes de comunicação, mas o povo não o conhece.
Assim como Aldé, Ellis também acredita que o crescimento de outras emissoras e a popularização da internet derrubaram o monopólio de informação da Rede Globo. No entanto, o que ele acha mais importante é a chegada ao poder de um presidente que não teve apoio da emissora.
– A Globo não apoiou o Lula, o que foi o seu primeiro grande erro político, mas um excelente passo para o Brasil – afirma o produtor. – A vitória de um presidente que não estava alinhado à emissora acabou com o monopólio da linha direta entre a mídia e o poder. Além do cidadão Kane é famoso entre jornalistas e estudantes de comunicação, o povo não o conhece John Ellis, produtor.
