Os ‘Bons amigos’ de Claudio Roditi

Por Luiz Orlando Carneiro

O carioca Claudio Roditi completou em maio 65 anos de vida, dos quais 30 passados nos Estados Unidos, com periódicas viagens ao Brasil e à Europa. Bem mais conhecido lá fora do que por aqui, é considerado um dos mais completos e inspirados trompetistas de jazz, não só pela crítica especializada mas também por seus colegas de ofício.

Basta lembrar que em 1992, um ano antes da morte de Dizzy Gillespie, foi um dos sete eminentes pistonistas que se reuniram em torno do mestre do bebop, no Blue Note de Nova York, e gravaram para a Telarc o antológico To Dizzy with love (os outros eram Doc Cheatham, Jon Faddis, Wynton Marsalis, Red Rodney, Wallace Roney e Charlie Sepulveda).

Na Europa, o jazzman brasileiro montou um trio com o pianista alemão Klaus Ignatzek e o baixista belga Jean-Louis Rassinfosse que produziu para a etiqueta Nagel-Heyer, de Hamburgo, os primorosos CDs Three for one (2002), Light in the dark (2004), Reflections (2005) e Beyond question (2008).

O mais recente álbum de Roditi, Bons amigos, gravado em abril último, é da linha do jazz com tempero rítmico do samba, samba jazz ou sambop — o terceiro para a etiqueta Resonance, depois do festejado Brazilliance X 4 (com Hélio Alves, piano; Duduka da Fonseca, bateria; Leonardo Cioglia, baixo) e de Simpatico (também com Duduka e Alves, mais o guitarrista Romero Lubambo e o trombonista Michael Dease). Desta vez, seus sidemen são Lubambo de novo, Donald Vega (piano), Marco Panascia (baixo) e Maurício Zotarelli (bateria).

A escolha dos temas para o disco foi feita, de comum acordo, com o dono da Resonance, George Klabin, amigo de Claudio há 36 anos. O título do álbum é de uma composição de Toninho Horta, e os outros “amigos” — segundo as liner notes do trompetista — são autores, vivos ou mortos, que sempre o inspiraram: Tom Jobim (Lígia), Egberto Gismonti (O sonho), Johnny Alf (Céu e mar), Eliane Elias (Para nada e Amandamada) e a enigmática Stella (Fantasia). O líder do quinteto assina Bossa de Mank, Levitation, e Piccolo samba — esta interpretada no piccolo trumpet, afinado uma oitava acima do instrumento comum, e uma especialidade sua (em Beyond question, ele gravou Piccolo blues, um de seus sucessos).

Roditi reafirma em Bons amigos a sua técnica impecável e seu fraseado elegante, de um lirismo nunca derramado, enriquecido pelo som encorpado de um trompete muito especial, com válvulas rotativas (como as da trompa) ao invés de pistões. Ele explica que as rotary valves permitem tirar do instrumento um som mais generoso, mais redondo, bem semelhante ao do flugelhorn — o irmão mais gordo do trompete, também usado no CD.

A lógica e a concisão melódicas do fraseado de Claudio Roditi rejeitam exibições gratuitas no registro agudo do trompete, e fazem lembrar os inesquecíveis Red Rodney e Art Farmer. Mesmo nas peças mais ritmicamente intensas, como O sonho (8m) e Levitation (4m45) — esta última descrita pelo autor como “straight-ahead jazz com uma melodia que se repete, mas mudando muito de tonalidade”. Para nada (6m15), Bossa de Mank (7m35), Céu e mar (6m50) e Amandamada (6m) são particularmente envolventes, no balanço da bossa nova, com a cooperação sempre ativa de mestre Lubambo e da cozinha a cargo do trio Vega-Panascia-Zotarelli.

Fantasia (8m10), a faixa mais longa do disco, é uma repousante balada exposta e desenvolvida pelo líder no flugelhorn, com solos de piano, baixo e guitarra. Em Lígia (5m45), Roditi dá uma de vocalista, como já havia feito no CD Simpático (Waltz for Joana). Não compromete, mas nem precisava. Ele “canta” tão bem no trompete...