Alemanha reconhece genocídio armênio e abre crise com turcos
Ancara convocou embaixador e avisou sobre 'consequências'
O Parlamento da Alemanha aprovou nesta quinta-feira (02) uma moção em que reconhece a morte de cristãos armênios pelo Império Otomano durante a Primeira Guerra Mundial como um "genocídio".
A moção, que foi apresentada pelo bloco conservador liderado pela chanceler Angela Merkel, passou com a aprovação de quase todos os parlamentares - só houve um voto contra e uma abstenção.
A decisão causou indignação no governo de Ancara, que convocou seu embaixador em Berlim em sinal de protesto.
O presidente da Turquia, Recep Tayyp Erdogan, que está em viagem diplomática na Quênia, afirmou que a decisão "terá um impacto muito sério nas relações entre a Turquia e a Alemanha". Segundo o mandatário, convocar o embaixador foi "o primeiro passo", visto que pretende tomar outras medidas contra o país.
O premier turco, Binali Yildrim, também alçou o tom e disse que a aprovação foi um "erro histórico" dos alemães. O temor da comunidade internacional é que essa moção aprofunde ainda mais a crise imigratória no continente, já que a Turquia abriga mais de dois milhões de refugiados que poderiam ir para a Europa em busca de uma nova vida.
Por sua vez, Merkel defendeu a aprovação e reforçou que a relação com os turcos não mudará por causa disso. "A Alemanha tem com a Turquia laços grandes e fortes, mesmo que tenhamos ideias diferentes sobre certas questões. O ponto de vista diferente sobre alguns problemas faz parte da cultura democrática", afirmou a líder ao lado do secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg.
Essa não é a primeira vez que a Turquia convoca o embaixador por causa dessa questão. Em 2014, a crise foi com o Vaticano. O papa Francisco, ao celebrar a missa pelos 100 anos do "martírio armênio", classificou a morte dos cristãos como um "genocídio".
Ancara se nega a aceitar que a morte de mais de 1,5 milhão de pessoas - essencialmente cristãos armênios, mas também católicos sírios e ortodoxos, assírios, caldeus e gregos - seja um "genocídio". Porém, o governo reconhece os crimes como um "massacre" por causa da repressão contra a população que colaborava com a Rússia dos czares.
Entre os anos de 1915 e 1916, o partido chamado de "Jovens Turcos" atacou essas minorias, que moravam no território do então Império Otomano. Muitos historiadores classificam o que ocorreu como uma "limpeza étnica" similar àquela que os nazistas impetraram contra os judeus na Segunda Guerra Mundial, chamando o evento de "holocausto turco".
O termo "genocídio armênio" foi reconhecido em 1985 pela subcomissão de Direitos Humanos das Nações Unidas e, dois anos depois, foi também reconhecido pelo Parlamento Europeu - que ratificou uma resolução sobre o tema em 2014. Ao todo, 21 países reconhecem o termo "genocídio" para a morte dos armênios, incluindo a Itália.
