Venezuela: a aliança eleitoral da oposição se perpetuará como aliança política?

Cientista político aponta diferentes alas dentro da coligação vencedora do pleito legislativo 

Por Thomas Badofszky 

As eleições legislativas que ocorreram na Venezuela no último domingo (6) representaram uma dura derrota para o governo do presidente Nicolás Maduro e para o chavismo. Pela primeira vez em 16 anos, a oposição volta a ser maioria na Assembleia Nacional do país. Os resultados definitivos do pleito, com apuração total dos votos, foram anunciados nesta terça-feira (8) pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE) e correspondem a uma vitória expressiva da Mesa de Unidade Democrática (MUD), a coligação opositora, que obteve 109 cadeiras, às quais podem ainda ser acrescidas as três da cota de representantes indígenas, alinhados com a oposição. Já o Grande Pólo Patriótico, a aliança chavista, perde praticamente metade das cadeiras que até agora possuía, ficando com apenas 55 a partir do ano que vem. A Assembleia Nacional venezuelana é um Parlamento unicameral, constituído ao todo por 167 cadeiras.

Com a conquista da maioria de dois terços pela oposição, esta terá, em teoria, amplos poderes para legislar e fiscalizar poderes estatais, colocando Maduro em posição desconfortável. Contudo, para o cientista político Eurico Figueiredo, diretor do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (UFF), ainda é cedo para afirmar que a aliança eleitoral dos opositores, que formou a MUD, se perpetuará como aliança política na nova Assembleia Nacional, que tomará posse no dia 5 de janeiro de 2016: “Nós sabemos que essa ampla coalizão apresenta diferenças internas, alas distintas. Portanto, é difícil supor de antemão que haverá uma força em torno de uma liderança que dê consistência e continuidade à aliança eleitoral”, explica.

“Algumas alas são mais radicais, outras já acreditam que o enfrentamento ao governo deve ocorrer de forma mais processual, gradual. Uma outra parte delas crê que o mais importante, de imediato, não é o combate a Maduro, mas sim recuperar a economia e tirar o país da crise por que vem passando, através de negociações com o Executivo”, afirma o cientista político.

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Eurico Figueiredo, no entanto, não acredita que o presidente venezuelano irá se dispor a negociar, e muito menos firmar um “novo pacto econômico” com a oposição: “A posição de Maduro dá sinais de enfrentamento. Ele usa muito em seu discurso político a mitificação de Chávez. Há alguns dias o presidente chegou a declarar ao lado de um monumento de seu antecessor: ‘daqui ninguém tirará o nosso comandante’. Ele explora a liderança de Hugo Chávez, que foi muito profunda, marcou história, como forma de se opor às contestações”.

As recentes declarações de Maduro, feitas após as eleições, reforçam a ideia de que um diálogo entre governo e oposição realmente é improvável. Na última terça feira (8) o presidente venezuelano afirmou que não permitirá a anistia de líderes opositores, como Leopoldo Lopez, preso em 2014 por fomentar atos violentos em protestos contra o governo. Maduro também anunciou que irá emitir a Lei de Estabilidade Laboral, que proibirá a demissão de trabalhadores do setor público até 2018. A lei até poderia ser derrubada com facilidade pela Assembleia Nacional a partir do ano que vem, mas sua anulação constrangeria os deputados oposicionistas frente aos trabalhadores do país. 

Segundo Eurico Figueiredo, a Constituição venezuelana confere bastante poder ao Executivo, que detém “a chave das Forças Armadas, da Justiça, e da Administração”. “A Constituição é a favor dele, e as Forças Armadas estão do lado dele. Na verdade, Chávez foi capaz de costurar um consenso muito forte nas Forças Armadas para dar suporte a suas ações”, explica o cientista político.

Para Figueiredo, dentro desse cenário de incertezas, é possível que haja uma radicalização do processo político, no limite do qual, poderia haver um golpe do próprio Maduro: “A cultura política venezuelana, diferentemente da do Brasil, é uma cultura política de confronto, mais do que de conciliação. No limite da radicalização, pode-se esperar uma crise política de tal porte, que leve ao fechamento ainda maior do regime”, afirma.  

Na visão do especialista, este seria justamente o maior medo das vozes mais moderadas da oposição, que analisam “assumir uma posição responsável e reflexiva, que não busque o confronto”.  Um processo de Impeachment, ele garante, “não está sendo considerado agora”.