Argentina pós-kirchnerismo: dúvidas sobre a política externa do novo governo de Macri
Para o cientista político Eurico Figueiredo, é provável que país se afaste gradualmente do Brasil
A vitória de Mauricio Macri nas eleições presidenciais de domingo passado (22) na Argentina aponta para um redirecionamento político e econômico do país. Se durante os governos chamados kirchneristas houve a execução de um projeto desenvolvimentista de governo, com foco em políticas públicas, a partir do dia 10 de dezembro, quando Macri tomará posse na Casa Rosada, a tendência é que o Estado concentre seus esforços no ajuste das contas públicas e no combate à inflação, tomando a via neoliberal.
Candidato oposicionista pelo partido conservador Proposta Republicana (PRO), do qual é fundador, Macri derrotou o governista Daniel Scioli nas eleições. Caso tivesse sido eleito, Scioli manteria o governo argentino no mesmo caminho de seus antecessores, Cristina e Néstor Kirchner, que gozavam de amplo apoio por parte do governo petista no Brasil, justamente por uma questão de afinidade ideológica. Os dois países representam hoje as maiores economias do grupo Mercosul, e são os grandes parceiros políticos e comerciais do continente.
Na última segunda feira, a presidente Dilma Rousseff fez questão de telefonar a Macri para parabenizá-lo pela vitória. Durante a conversa, que durou cerca de 10 minutos, o novo presidente argentino ressaltou que deseja uma relação “fluida e dinâmica” com o Brasil, bem como uma “nova vitalidade” para o Mercosul. No entanto, é inviável uma definição precisa de como será a política externa da Argentina nos próximos anos, já que ainda nem houve a formação do novo governo. Suas relações diplomáticas com o Brasil podem ser comprometidas não só pela proximidade petista com os governos anteriores, mas em razão, por exemplo, da indefinição acerca da permanência da Venezuela no Mercosul.
Na opinião do cientista político Eurico Lima Figueiredo, diretor do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (UFF), o governo de Macri buscará uma aproximação cada vez maior com os EUA: “Eu acho que o principal alinhamento que ele (Macri) buscará será com os EUA. Ou seja, com uma identificação maior, com a liderança norte-americana, em detrimento de uma política externa que vinha sendo mais ou menos parecida com a nossa, principalmente durante o período Lula, marcada por uma busca de maior autonomia nacional. Há indicações de que ele vai buscar o famoso Bloco do Pacífico, isto é, Peru, Chile, Colômbia, México, EUA, o que implicaria também em um esvaziamento do Mercosul. Não a curto prazo, mas a médio prazo. Ora, se isso for consistente, significa também que ele irá se afastar, e mesmo se confrontar com a liderança brasileira. Nisso terá, possivelmente, o apoio norte-americano, o que pode ser muito importante para que, ao invés do Brasil, a Argentina se candidate como protagonista maior da região”.
Para ele, o afastamento entre os dois países será gradual: “Prevejo que de início Macri tentará atuar diplomaticamente, ou seja, se afastar não se afastando, porque existe já um comércio forte estabelecido entre Brasil e Argentina, com a predominância brasileira evidentemente. A economia brasileira é muito maior do que a economia argentina, portanto, nessa parceria as vantagens maiores são da Argentina e não do Brasil. É o preço da liderança, né? Então, esse afastamento do Brasil eu acredito que será progressivo, não será agressivo. E a aproximação com os EUA será marcante. Mas não podemos esquecer que o país tem um passivo muito grande nos EUA, com os chamados fundos abutres, que inviabilizam a tomada de empréstimos nos EUA para alavancar a economia argentina. Mas isto pode ser também minimizado pelo alinhamento, ou seja, uma política de Estado norte-americana que favoreça a possibilidade de empréstimos, de deslocamento de investimentos dos EUA para a Argentina, a partir de estímulos que venham de lá. Isso é possível acontecer, e eu prevejo, inclusive, que aconteça”.
“Acredito que ele (Macri) irá buscar uma política de alinhamento, muito mais do que uma política de soberania, de autonomia nacional, o que pode render dividendos”, resume.
Para Eurico Figueiredo, os primeiros atritos entre o novo governo argentino e o governo brasileiro devem ocorrer, no entanto, em função da falta de um acordo a respeito da presença da Venezuela no Mercosul: “O ponto de atrito maior com o Brasil, de início, será a questão venezuelana. A presidente Dilma declarou que se manterá firme no apoio ao governo de Maduro, enquanto Macri já anunciou que arguirá a chamada cláusula democrática solicitando a expulsão da Venezuela do bloco do Mercosul. Então eu acho que esse passivo Brasil-Venezuela, Argentina Venezuela, será o pomo da discórdia inicial, mas acredito que outros ocorrerão no decorrer de seu mandato”.
No momento, o grande desafio de Mauricio Macri como novo presidente é construir uma coligação política, uma base de sustentação para poder governar. Os peronistas são hoje maioria no Senado e primeira minoria na Câmara dos Deputados, o que indica que Macri deve enfrentar grandes dificuldades no início de seu mandato. Mas de acordo com o cientista político da UFF, o poder Executivo concentra força suficiente para contornar situações adversas como essa: “Ele (Macri) vai ter dificuldades em fazer as alianças necessárias para ter o apoio do Congresso como um todo. Mas lá existe também um presidencialismo. Isso significa que ele usufrui de recursos de poder do Executivo para atrair uma bancada, de início contrária a ele, em prol de acordos, convênios, que podem no decorrer do governo dele se transformar em alianças mais estáveis, para poder governar. Mais ou menos como os presidentes Lula e Fernando Henrique Cardoso fizeram. Ou seja, não haverá um conforto legislativo para ele, mas haverá condições de governabilidade, desde que Macri consiga atravessar pelo menos seu primeiro ano de governo sem maiores tensões”.
“Ora, a Argentina está dividida, como o Brasil. A margem de vitória do Macri para o Scioli foi muito pequena, portanto, ele deve enfrentar uma oposição bastante veemente. Seja lá como for, eu não prevejo um ano fácil, que seja tranqüilo para ele. Acho que será um ano marcado por dificuldades crônicas, tanto no âmbito social quanto no político”, conclui Eurico Figueiredo.
* Do projeto de estágio do JB
