Governo e indígenas chegam a acordo na Bolívia e protestos terminam
O governo boliviano e representantes de indígenas amazônicos, que caminharam durante 65 dias para conter a construção de uma estrada, chegaram nesta segunda-feira a um acordo que põe fim a dois meses de protestos que provocaram um forte desgaste da imagem do presidente Evo Morales.
Como parte do acordo, o Congresso, de maioria governista, deve sancionar nesta segunda-feira uma lei com as emendas propostas por Morales, entre elas o cancelamento do projeto de uma estrada de 177 km que ia ser construída com o financiamento do Brasil através da reserva natural e indígena TIPNIS, que será considerada área intangível.
"Os irmãos indígenas nos disseram que eles vão permanecer em La Paz até que a Assembleia Legislativa (Congresso bicameral) possa aprovar a lei", que será promulgada ainda nesta segunda por Morales, disse o ministro da Comunicação, Iván Canelas.
Após a aprovação parlamentar, "vamos preparar um ato aqui no Palácio de Governo para que o presidente possa promulgar a lei e, desta maneira, colocar um ponto final neste conflito", ressaltou Canelas.
O Parlamento vai declarar também o TIPNIS área intangível que implica o "respeito a seu habitat, e a proteção ambiental e ecológica", explicou Sonia Guardia, senadora do Movimento Ao Socialismo (MAS), partido de Morales.
O caráter de intangibilidade preserva também o TIPNIS de eventuais plantações de coca, principal insumo para a produção da cocaína.
"Acredito que o governo finalmente entendeu que não podia destruir um parque nacional. Não sei se foi porque entendeu ou se foi pela pressão da marcha que vinha e o povo boliviano se ergueu", declarou Fernando Vargas, líder dos indígenas, ao confirmar o acordo.
Segundo outro líder da marcha, Adolfo Chávez, nas negociações com Morales foram estabelecidos acordos em outros 15 pontos de sua plataforma.
"Tentamos por meio do diálogo priorizar as leis (em diversos temas) e é necessário trabalhar (no futuro) com a equipe do presidente acerca destes temas que vão continuar sendo discutidos depois da promulgação desta lei" relacionada ao TIPNIS, acrescentou.
Segundo diversas fontes, após a promulgação da lei do TIPNIS, a marcha será desmobilizada e retornará a seus lugares de origem. "Isso vai ocorrer", confirmou Chávez.
A solução para o conflito foi alcançada na sexta-feira depois que o presidente Evo Morales anunciou que nenhuma estrada atravessará a reserva natural do Território Indígena Parque Nacional Isiboro Sécure (TIPNIS), no centro da Bolívia, para o qual enviou emendas a uma lei que irá para o Congresso, de maioria governista, nesta segunda-feira.
A oposição considerou que o anúncio de Morales representa uma derrota para o presidente. Já Canelas considerou que o governo saiu fortalecido do conflito.
"A solução dos problemas sempre fortalecem todos. Neste ponto, mostramos que o diálogo é o melhor dos caminhos para a solução dos problemas", afirmou.
Embora não existam pesquisas de opinião a respeito, a imprensa local considera que a imagem de Morales ficou fortemente desgastada, principalmente depois que uma operação policial tentou dispersar violentamente a marcha no dia 25 de setembro.
Esta é a segunda vez em menos de um ano que Morales recua diante do protesto de setores sociais. Antes, ele havia promulgado um impopular aumento do preço da gasolina - de mais de 70% - e teve que voltar atrás.
O presidente boliviano acaba de sofrer um revés nas recentes eleições para eleger magistrados, nas quais o voto nulo dominou.
