"Lutaremos com todas as armas pacíficas", diz porta-voz da OLP

Por Allen Chahad

"Queremos ir às Nações Unidas para ilhar Israel? Não. Queremos para deslegitimar Israel? Não. Queremos ir para deslegitimar a ocupação? Sim. Vamos combater pelo direito das fronteiras de 1967 com todas as armas pacíficas que tenhamos. E os países que votem contra ou se abstenham estarão enviando uma mensagem muito perigosa de que nem mesmo a diplomacia pode ser usada por nós para termos nossos direitos". Xavier Abu Eid, porta-voz da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), profetiza tais palavras, "fuzilando" com os olhos todos seus interlocutores. Neste caso específico, um grupo de jornalistas brasileiros com os quais divide uma mesa de almoço e discussão em Ramallah, cidade capital da administração palestina.

Cristão e de origem palestina, Xavier deixou a família no Chile para trabalhar na equipe de negociações da OLP, onde está desde dezembro de 2007. Enche a boca para falar que quer fazer história. E acredita estar muito perto disso. Afinal, Mahmoud Abbas pediu nesta sexta-feira, durante a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), a inclusão da Palestina como membro-pleno da entidade. O presidente palestino reivindica o reconhecimento internacional do Estado independente e soberano com as fronteiras de 1967 e com Jerusalém Oriental como capital.

"Já ouvi falar em Guerra dos 100 anos, Guerra dos 40 anos, mas nunca em um processo de paz de 20 anos. Por isso estamos chegando ao momento da verdade. Israel quer ou não quer a solução dos dois Estados? Nós não estamos dispostos a seguir perdendo tempo", continua. Xavier participou da estratégia adotada pelos palestinos de - durante o último quase um ano de negociações interrompidas com Israel - começar a pedir para que países reconheçam, individualmente, um Estado Palestino. Após angariar aliados, o processo culmina agora com a ida à ONU.

E o que mudará se os palestinos conseguissem representatividade integral como país-membro na entidade? "Todos nós sabemos que 1º de outubro não será muito diferente de 31 de setembro aqui. Teremos que passar pelas mesmas barreiras de seguranças, os assentamentos continuarão a ser construídos. Mas evidentemente os elementos que a Palestina ganha com esse reconhecimento são muito importantes", afirma o porta-voz da OLP. Ele relaciona a questão palestina com o apartheid (regime de segregação racial entre brancos e negros institucionalizado em 1948 no país e que acabou no papel em 1994).

"Existe uma cultura de impunidade sobre a qual Israel tem vivido. Comparo com o caso da África do Sul e o apartheid, até que as Nações Unidas tomaram uma decisão clara de expulsar o país da assembleia. E esse foi o começo de um movimento que levou ao entrave entre respeitar o direito internacional e ser parte da comunidade ou acabar ilhado. Acredito que Israel está chegando a um ponto no qual tem que eleger entre ser ilhado ou respeitar o direito internacional", compara o porta-voz da OLP.

Essa é a principal justificativa na lógica dos palestinos de não aceitarem a alternativa de uma resolução de ingresso na ONU como um Estado "observador não membro" - o único atualmente com tal status é o Vaticano. Afinal, nessa condição, não teriam acesso direto ao Tribunal Penal Internacional - criado em 2002 para julgar crimes de guerra e contra a humanidade. "É uma forma não violenta que temos de proteger nossa população do que tem sido uma política sistemática em cometer crimes de guerra por parte de Israel", resume Xavier.

A autoridade destaca a importância da discussão territorial e diz que essa será a principal mudança após setembro. "A Palestina já não será o que Israel classifica abertamente como um território em disputa. Palestina não é um território em disputa. É um território em ocupação e cada colônia que Israel construa, cada israelense que entre ilegalmente em território palestino, cada casa palestina que seja demolida não será mais parte de um território em disputa, mas sim um incidente internacional entre um Estado membro das Nações Unidas, que ocupa um outro Estado membro das Nações Unidas", diz, para em seguida lançar uma pergunta: por que Israel questiona tanto nossa ida à ONU e o reconhecimento do Estado Palestino?

"Lembro-me de uma declaração de Shimon Peres (presidente israelense). Ele disse que os Palestinos não vão conseguir nada nas Nações Unidas, que trata-se de um gesto simbólico. Nossa primeira reação é dizer que, se é tão simbólico, por que não nos deixam fazer? O que deixa claro que não é tão simbólico. A aceitação na ONU pelo menos vai gerar maior pressão internacional para que Israel se retire", justifica o porta-voz.

Mas antes mesmo de a reinvindicação palestina ir à votação, os Estados Unidos já anunciaram que vão exercer seu poder de veto como um dos membros-permanentes do Conselho de Segurança. Para ser aprovada, além de não receber veto, a resolução precisaria de nove votos dos 15 integrantes do conselho da entidade. Xavier reclama que o presidente norte-americano Barack Obama não teria nem mesmo condições de conduzir uma mediação de paz de maneira "honesta".

"Independente de qualquer pressão que tenhamos hoje, estamos certos de que fazemos o correto. E por isso não podemos parar. Quando Israel fala de uma solução de dois Estados, não é da maneira como estamos falando. Falam simplesmente em justificar os atos para tomar a maior quantidade de terras possível, a maior quantidade de recursos naturais possíveis e o que sobra, que são as áreas onde nós palestinos estamos, será o Estado palestino. Conectado por túneis, por pontes, pelo que seja, mas sem nenhuma condição de ser soberano. E é assim a única maneira que se pode entender como tem sido a política de colonização por parte de Israel, que se diz a única democracia do Oriente Médio", discursa o porta-voz.

Palestinos divididos

O que dizem os críticos da iniciativa dos palestinos de buscar na ONU o reconhecimento internacional de um Estado legítimo e soberano? Não os israelenses ou norte-americanos, mas uma outra voz. "Não acredito em nenhuma solução que venha da ONU. O que eu acho que vai provocar é que Israel retrocederá nas concessões", projeta Khaled abu Toameh, correspondente do jornal israelense Jerusalem Post para assuntos da Palestina.

Palestino e mulçumano, o jornalista já trabalhou fazendo a mediação da segurança de entrada e saída de colegas de profissão na Cisjordânia em momentos mais tensos da relação com israelenses. Ele lamenta que não haja "liberdade de imprensa" na Palestina e se orgulha de já ter entrevistado "até os terroristas mais perigosos da Cisjordânia" para publicação com independência no jornal israelense.

Khaled recorre a um rápido resumo histórico dos palestinos para mostrar contradições. Diz que Yasser Arafat, ex-presidente da Palestina e fundador do partido político Fatah, "radicalizou", levando a corrupção à Cisjordância. Como consequência, "quando os palestinos não veem a presença do Estado, correm para os braços do Hamas". "Foi o voto de protesto contra a OLP que resultou na vitória do Hamas", aponta o jornalista para explicar como o movimento fundamentalista islâmico palestino mais importante, que possui um braço armado, venceu as últimas eleições palestinas em 2006 - desde então não foram mais realizadas novas eleições.

Com base no rápido relato, Khaled questiona a ida do presidente palestino Mahmoud Abbas às Nações Unidas. "Como pedir um Estado, sendo que ele não consegue nem ir a Faixa de Gaza dominada pelo Hamas? O Hamas tem se manifestado, dizendo: 'quem autorizou Abbas ir à ONU e pedir divisão de 1967 sem a autorização de ninguém para fazê-lo?'".

O jornalista até acredita que os palestinos conseguirão o reconhecimento do Estado, mas alerta que ainda assim terão que sentar à mesa para negociar. "Temos duas autoridades ilegítimas hoje na Palestina. Os dois mandatos expiraram e o palestino fica entre o Fatah, que não é uma alternativa ao Hamas por causa da corrupção, e o Hamas, que é uma organização terrorista. Os dois estão adiando as eleições. Mas hoje, o que está claro, é que não há uma terceira via".

"Fatah e Hamas se odeiam mais do que odeiam a Israel. A Palestina não está dividida apenas fisicamente - entre Cisjordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém -, mas também ideologicamente. A ala radical quer 100% das terras e substituição de Israel por um país islâmico. Não quer negociar, nem conceder. Os moderados, que prefiro chamar de menos radicais, aceitam as fronteiras antes de 1967. Ainda assim têm rejeitado as negociações. Sendo assim, não há o que fazer, não há acordo", completa.

Aqui cabe um parênteses. O que Xavier Abu Eid, porta-voz da OLP, diz sobre a postura do Hamas? "É fato que o Hamas não reconhece o Estado de Israel, mas é uma realidade que não preocupa", diz ele, argumentando que o partido político atualmente no poder não fala em nome de todos os palestinos. "Partidos políticos israelenses não reconhecem nem mesmo a existência do povo palestino", responde Xavier, defendendo que a posição do Likud, partido da direita conservadora de Israel e do atual primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, também não pode ser o fiel da balança na comparação.

Devolvendo a palavra a Khaled, o jornalista defende que "a ocupação de Israel, bem ou mal, garante alguma estabilidade para a Palestina". "Quando converso com pessoas nas ruas da Cisjordânia, por menos que queriam falar, uma a cada três diz que gostaria de ser israelense por causa da vida, da segurança, dos benefícios sociais, da educação, etc", conta. A confissão dele mesmo resume as possibilidades de contradições do conflito. "Como palestino, no momento, prefiro viver sob as leis de Israel".